Brasil

O Brasil precisa ser democrático e se reconciliar consigo mesmo


No último fim de semana, talvez eu tenha tido uma das experiências mais terríveis da minha vida. Só comparado talvez ao golpe de 64, mas naquela época eu era muito jovem. Tinha a vida toda pela frente, então as esperanças de mudanças eram muito grandes.
Claro que nós temos esperança ainda, mas a prisão do Lula foi realmente um golpe muito severo, ao qual todos nós democratas temos que reagir. E tendo ido segunda-feira a Curitiba, participar de uma reunião, mas também participar do acampamento, eu tive uma sensação estranha, porque do momento que eu me dirigi ali às pessoas que estavam acampadas, simpatizantes e militantes que estavam ali no acampamento de apoio ao Lula, ao fundo havia o presídio da polícia federal, onde o presidente estava.  
Então, isso deu uma materialidade a essa ideia absurda de ter o homem mais popular do Brasil, o presidente mais apreciado de todos os presidentes, o candidato que teria e tem mais chances de vencer as eleições, talvez o único que possa deter a ameaça fascista que nós estamos vivendo, preso.
É como ver o povo brasileiro preso.
Então, essa é uma sensação terrível. Nós temos que responder com unidade real. Sem nenhuma hipocrisia, sem nenhum oportunismo das forças progressistas.
Eu acho que todas as disputas têm que ficar para segundo plano. Nós temos que realmente lutar pela liberdade do presidente Lula e lutar pelo seu direito de ser candidato.
É o que o povo brasileiro quer. É o que o povo brasileiro precisa. É o que a sociedade brasileira necessita para viver um pouco mais em paz consigo mesma.
Eu sei que há um sentimento fascista em uma parte da classe média, alimentado pela mídia, direta ou indiretamente. Mas ele não é dominante. Nem é tão importante.
E se o Lula voltar ao poder com a sua grande capacidade de articulação esse resíduo fascista, certamente, se diluirá.
É isso que nós temos que fazer. Unidade das forças progressistas no Brasil. Unidade verdadeira, não hipócrita, não oportunista. E, ao mesmo tempo também, nos valendo dos inúmeros apoios internacionais que nós temos recebido.
Eu mesmo, como ex-chanceler do presidente Lula, recebi ligações do ex-presidente Lagos, do Chile, que é um homem moderado, não pode ser acusado de ser um esquerdista radical, do ex-presidente Duhalde, da Argentina. Muitos outros ligaram diretamente para o ex-presidente ou para os seus assessores.
E há também uma campanha muito importante lançada pelo Prêmio Nobel Perez Esquivel, para que o Lula possa concorrer ao Prêmio Nobel. Claro, será o ano que vem se ocorrer. Mas a campanha em si já é muito importante.
Então, eu também queria conclamar a todos que estão aqui assistindo essa minha breve fala que ajudem nessa campanha. Inclusive os que ajudaram no manifesto, que continua aberto, “Eleições Sem Lula é Fraude”, que possam ajudar novamente a obter apoios para a campanha lançada pelo Perez Esquivel.
Porque eu acho que o Brasil precisa de Lula livre. O Brasil precisa de Lula na disputa eleitoral. O Brasil precisa ser democrático, se reconciliar consigo mesmo. E resolver as coisas, não da maneira como tem sido feita até agora, com decisões judiciais altamente discutíveis, muitas delas movidas até por instintos menores.
Só para terminar eu acrescentaria uma lembrança: o próprio ministro Gilmar Mendes, que não pode ser acusado de petista ou lulista, no seu próprio voto ele fez muitas críticas ao PT, mas ele disse, na entrevista que deu em Portugal, que a prisão de Lula é uma mancha à imagem do Brasil. E devo dizer que, nesse caso, eu concordo com o ministro Gilmar Mendes.

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  1. Regina Maria de Souza says:

    Obrigada, Ministro Celso Amorim. Estamos em mobilização para trazer Lula de volta para nós – livre, candidato e provavelmente outra vez presidente deste Brasil .

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