“Ninguém está olhando” mostra a frustração na terra das oportunidades

Longa conta a história de um ator argentino que vai a Nova York para tentar dar um salto na vida profissional

Estreou na última quinta-feira, 23 de novembro, “Ninguém está olhando”, da diretora argentina Julia Solomonoff, e co-produzido pela brasileira Lucia Murat. O filme conta a história do Nico, um ator interpretado pelo Guillermo Pfening, que vai a Nova York em busca de oportunidades.

Ele é um ator com um certo prestígio na Argentina e ele quer dar um salto na carreira, e vai para a Nova York. Só que o que acontece não é exatamente um salto. Ele aguarda um projeto deslanchar, ele circula pela cidade enquanto ele espera. Ele já tem o convite, mas o projeto não anda, depende de investidores, tem algumas restrições. Enquanto isso, ele precisa dar os pulos dele.

A ideia é mostrar um pouco como, para além daquela ideia de glamourização dos atores, quando eles vão para Nova York, até a glamourização de Nova York, mostra os perrengues pelos quais as pessoas passam, sobretudo quando elas vêm de países periféricos.

É um ator que precisa fazer alguns bicos, ele trabalha de garçom à noite, ele mora de favor na casa de uma amiga, alguma um apartamento no airbnb, depois ele vai para outro lugar. Enfim, ele vive uma rotina inconstante enquanto esse projeto não deslancha. E ele começa a trabalhar também como babá de uma amiga íntima que se casou em Nova York. Ele começa a cuidar do filho dessa. E mostra também uma relação de exploração quando a pessoa está em baixa, quando ela não tem ainda dinheiro suficiente como ator, um ator reconhecido internacionalmente, aí as pessoas vão abusando dele.

Veem que ele está disponível e mandam ele fazer uns pequenos favores. Tem uma tensão entre ele e o marido dessa amiga, que trata ele como se fosse um sujeito que está em baixa, para explorá-lo. Vai mostrando esse desencanto com a terra de oportunidades que ele foi buscar em Nova York, que não é tão de oportunidades assim.

O filme é com alguns outros trabalhos que se passam na cidade. Por exemplo, a gente lembra do Francis Ha, que também é um filme recente, feito em NY, filmado em preto e branco, mas que mostra como nessa terra de sonhos, os sonhos precisam ser encaixados numa outra realidade. Essa terra onde cabe tanta coisa, às vezes o sonho não está bem adaptado ali e precisa sofrer alguns ajustes. A gente não vai conseguir fazer exatamente o projeto que tínhamos em mente, a gente vai ter que se contentar fazendo outros tipos de trabalho, como era o caso da personagem do Francis Ha.

Outro filme que também ecoa é o Helena, da Petra Costa, que inclusive aparece nesse filme. Não é por acaso. Ela conta, no Helena, a história de uma irmã que foi fazer a vida em NY e não deu certo. O drama de uma irmã que acaba cometendo suicídio – e isso não é um spoiler, é falado desde o início do filme. Então mostra as angústias de um ator em busca do seu espaço.

E num momento que a gente fala tanto em assédio e na correlação de forças entre essa mão de obra, a dependência dos produtores, dos chefões dos grandes empreendimentos. A gente não está falando de Hollywood exatamente, mas de NY, que é uma cena mais alternativa, mas ele tem um encontro com uma produtora e a gente já tem um indício de como as relações pessoais acabam passando na frente do talento e esforço. Tem outras variáveis que entram em campo quando as pessoas estão em busca de espaço num meio assim.

E tem a relação com o produtor de uma novela com quem ele trabalhava na Argentina. E a partir da relação com esse produtor, que é descrito como um canalha, em determinado momento do filme, e a gente não entende muito o porquê. Aí o filme começa a desvendar essa relação.

A gente começa a se questionar também: de que maneira, quando a gente vai em busca de alguma coisa em um lugar que não seja a nossa casa, onde já existe uma zona de conforto, de que maneira a gente não está fugindo também? Ele está em busca de alguma coisa, a gente não sabe exatamente qual é o sonho dele, a gente não vê ele atuar em nenhuma momento. É um ator interpretando um ator que não atua e ao mesmo tempo a gente não sabe do que ele está fugindo.

Temos todo filme para tentar juntar essas elipses para fazer construir qual é a desse personagem, que é errático, vai perdendo a paciência ao mesmo tempo que ele parece muito seguro do que ele quer, muito orgulhoso. Ele acaba criando algumas narrativas quando ele avisa os amigos dele que permanecem na Argentina, colegas atores. Ele inventa histórias de que ele se deu bem, deslanchou. E não é bem assim, ele está ralando muito mais do que colhendo louros na profissão que ele sempre associou a um glamour, mas que tem uma série de peneiras que são necessárias atravessar, ou não necessariamente quando a gente pensa nessa relação com os grandes chefes, produtores.

Essa relação que a gente têm visto no noticiário não é sempre que funciona de maneira adequada, com o profissionalismo e distanciamento adequados. Então é um filme que estreou na última quinta-feira e é a minha dica dessa semana. Espero que vocês gostem. Um abraço e até semana que vem.

 

 

 

3 Comentários

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Artur

10/01/2018 - 20h52

Quem escreveu esse texto cheio de “ele” e “a gente”? O Google tradutor? Uma tortura.

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Vicente Jouclas

27/11/2017 - 15h58

legal o comentário e a dica. Capaz de ser melhor do que “O dia do gafanhoto” principalmente; nesse aspecto de vulnerabilidade financeira. Obrigado.

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Denise Paiva

26/11/2017 - 13h41

Gostei muito da apresentação, fiquei interessada em ir ver o filme, também não acredito no que chega aqui pela mídia sobre a terra daa oportunidades, vejo documentários que as tais oportunidades não chegsm nem para eles mesmos

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