Dois caminhos para os jornalistas, no passaralho de Natal

A comentarista econômica Thais Heredia foi demitida da Globonews, sem aviso prévio ou choro posterior. E o colunista político José Roberto Toledo deixou o Estadão, aparentemente de moto próprio, no rumo da revista Piauí.

 

Demissões de trabalhadores são sempre lamentáveis e não apenas para quem sofre a degola.

Quem vive do trabalho e tem um mínimo de consciência e solidariedade de classe não quer ver os seus iguais numa situação difícil, que logo pode ser a sua própria.

Particularmente nesta época de Natal, que se presume mais fraterna e solidária do que as outras, e assim é vendida em prosa e verso em toda a mídia dominante.

No jornalismo, inúmeras famílias terão o peru mais magro e as preocupações mais gordas na ceia deste ano, por conta de demissões de seus membros.

O projeto A Conta dos Passaralhos, da agência independente de jornalismo Data Volt Lab, contabiliza 380 demissões de jornalistas até 17 de dezembro.

Desde 2012, quando o projeto começou, foram 2.026 cortes de jornalistas e 6.813 demissões em geral, nas empresas de mídia.

Mas talvez duas delas, ocorridas nesta semana, simbolizem melhor as contradições dos jornalistas, diante do moedor de carne que se converteu a profissão.

A comentarista econômica Thais Heredia foi demitida da Globonews, sem aviso prévio ou choro posterior. E o colunista político José Roberto Toledo deixou o Estadão, aparentemente de motu próprio, no rumo da revista Piauí.

Thais Heredia é uma trabalhadora jornalista tão afinada com o ideário neoliberal do patronato que considera o desemprego “ruim, mas necessário”.

Um comentário seu na TV converteu-se num meme imortal, quando foi resumido na legenda “Recessão e desemprego derrubam inflação e devolvem poder de compra aos brasileiros” – provavelmente a frase mais cínica, mentirosa e infame do jornalismo brasileiro em 2017, ano pródigo nessas modalidades.

José Roberto de Toledo, bem ao contrário, está longe ser um ventríloquo de patrão, a voz e o boneco da sabujice encarnadas na mesma figura.

É um daqueles raros trabalhadores jornalistas que, a bordo da grande empresa jornalística partidarizada e militante – indústria de pensamento único, imprensa de um lado só -, atua com equilíbrio e isenção, e tem o respeito de gregos e troianos na Odisséia politica brasileira.

Em que medida a crise da imprensa, que perde receita e audiência continuamente, e queima postos de trabalho no mesmo ritmo, não decorre de uma opção editorial entre esses dois tipos de jornalismo, o do proselitismo patronal adulatório, e o da equidistância, da isenção, do senso crítico?

Tudo é culpa da internet? Tudo é apenas mutação ambiental do modelo de negócios?

Ou esse desastre da imprensa comercial brasileira – e, como ele, o dos seus jornalistas – não decorre do fato de sobram Heredias e faltam Toledos nela, atualmente?

Que outro fator poderia incrementar a circulação e a audiência da imprensa, estimular o investimento publicitário e estabilizar o emprego dos jornalistas, senão a oferta de um jornalismo plural, sério, justo, focado no interesse público e acreditado por todos os campos políticos?

Mas não é o que temos nem, muito menos, o que teremos no ano eleitoral de 2018.

No balanço do próximo Natal, certamente, a conta do passaralho será ainda maior.

Um comentário

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Rosana Tonetti

28/12/2017 - 01h32

Nunca vi, ouvi e tomei tanto conhecimento sobre passaralhos como nos últimos dois anos! E olha que testemunhei muitos e até fui vítima de um deles! Contudo, dado o tamanho do apetite dos passaralhos, acho viável substituir o jargão jornalístico por pterossauralhos! Mais apropriado à volúpia predadora!

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