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​Tite faz pênalti em Neymar. E a imprensa faz que não vê.

Então, ficamos assim no Brasil dos prepotentes. General dá entrevista sobre a intervenção militar no Rio e proíbe perguntas. Técnico de futebol convoca coletiva levando o primeiro craque do país e impede que ele responda.

O jornalismo tomou mais uma bola nas costas nesta semana, tocada atrás da sua linha defensiva por um zagueiro improvável.

Ninguém menos que o Tite, técnico da Seleção Brasileira, talvez o único brasileiro unânime e aprovado por aclamação, ao menos até este lance polêmico.

Depois do jogo com o México, Tite e Neymar se apresentaram para uma entrevista coletiva à imprensa. Supostamente, para responder questões de interesse público.

O colega Fernando Caetano, da Fox Sports, cumpriu o seu dever.

Colocou na roda o tema que o planeta inteiro discutia naquele momento. Aliás, antes também e muito mais depois.

Ele pediu o comentário de Neymar sobre as declarações do técnico mexicano, Juan Carlos Osório, que acusou favorecimento da arbitragem ao Brasil e leniência com as faltas e encenações dos brasileiros, especialmente dele, o nosso Camisa 10.

Antes que pudesse emitir qualquer som, entretanto, Neymar foi obstruído por Tite, com a seguinte alocução:

“Dá licença, por favor. As hierarquias se mantêm. Técnico fala com técnico, atleta fala com atleta, direção fala com direção. Eu respondo depois essa pergunta para ti”.

Protestos na sala de imprensa contra essa descarada, abusada, violenta censura? Nenhum. Alguma réplica imediata ao pênalti verbal de Tite? Nenhuma.

Quem disse que há “hierarquias” no relacionamento entre a imprensa e as fontes de informação?

Se “técnico fala com técnico” e “jogador fala com jogador”, que diabos Tite foi fazer na tal “entrevista coletiva”, levando Neymar de boneco de ventríloquo?

E quem disse que o Brasil e o mundo têm qualquer interesse nas opiniões de Tite sobre a conduta de Neymar, quando podem ouvir o próprio atleta?

Ninguém cobrou essas obviedades na hora e mesmo depois. As críticas à jogada desleal de Tite, ao carrinho por trás na liberdade de expressão, foram muito tímidas.

Boa parte da torcida, claro, na sua infinita estupidez, extasiou-se com a atitude do “professor”. Alegrou-se de vê-lo “calar a boca” do jornalista.

Mas o que doeu mesmo, de rolar no gramado, foi a omissão da própria categoria. A resignação bovina. O deixa-disso covarde.

Então, ficamos assim no Brasil dos prepotentes.

General dá entrevista sobre a intervenção militar no Rio e proíbe perguntas. Técnico de futebol convoca coletiva levando o primeiro craque do país e impede que ele responda.

E a opinião pública que se dane, porque em estado autoritário, o poder não tem nada a justificar para ninguém. Seja qual for o poder: engravatado, togado, fardado ou calçado em chuteiras.

OK que Tite não queira problemas, na reta final para um título que se aproxima.

OK que as marolas jornalísticas podem se transformar em tsunamis na alma superprotegida dos craques mimados de hoje em dia.

Mas isso é problema deles, não da imprensa. Que tem o direito e o dever de fazer as perguntas que precisam ser feitas.

Este futebol globalizado e bilionário já é uma pálida sombra do esporte livre e empolgante que um dia foi.

A imprensa domesticada e obediente, não menos. É apenas um ectoplasma do jornalismo incisivo e crítico que a democracia exige.

Tite fez falta pesada e montou a barreira. Vamos ver quando a imprensa terá coragem de cobrar com classe e fazer o gol que ele merece tomar.​

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