Venezuela: Precisamos falar sobre fascismo

O que vemos hoje na Venezuela é a face mais cruel e violenta da luta de classes. É uma expressão nua e crua do neofascismo latino-americano.


Precisamos falar sobre o fascismo. Não o fascismo europeu do século XIX, mas o neofascismo latino-americano que vem sendo cuidadosamente gestado nas entranhas da oposição venezuelana, e que é a expressão da ação política altamente violenta, racista e classista, fortemente apoiada em uma construção midiática que tem como objetivo restaurar os velhos privilégios das elites. Assim como os fascistas europeus, a oposição venezuelana se utiliza de métodos muito similares para semear a destruição e o caos. E, em uma tentativa de reverter os ganhos sociais da Revolução, propõem uma agenda reacionária, e encorajam a violência e o ódio contra determinados setores da sociedade venezuelana. Se afastam, porém, de seus pares europeus no sentido de que o neofascismo suprime o conteúdo nacionalista: além de preservar seus próprios privilégios, a oposição venezuelana busca, mais do que tudo, agradar aos interesses do grande capital internacional.

O objetivo é claro: provocar certos setores da sociedade venezuelana para levar a um cenário de violência tão extrema que justifique uma intervenção internacional, enquanto ao mesmo tempo busca enfraquecer as bases e o próprio governo. E isso se revela nos alvos dos ataques: a unidade institucional do chavismo, os ataques pessoais e escárnios às lideranças chavistas, tentativas de criar confrontações em bairros populares tradicionalmente chavistas.

Se bem é verdade que essa estratégia de caos continuado nas ruas já começa a dar sinais de cansaço – os focos de violência estão reduzidos a alguns poucos municípios estratégicos de dois dos 24 Estados que compõem o país e as adesões aos protestos da oposição estão cada vez menores, também é verdade que se observa um agravamento inversamente proporcional da violência nas demonstrações opositoras. E aqui é onde mais se destaca o componente de luta de classes: até o momento, quatro jovens negros foram assassinados pelos opositores por “parecerem chavistas”.

Esse seria um segundo momento do plano de violência continuada da oposição, com a adição de elementos paramilitares e a instrumentalização dos assassinatos resultantes dessa violência como arma política. O saldo total de mortes já chega a 67, e figuras-chave da oposição, como Lilian Tintori, seguem instigando a violência, afirmando que “nenhuma morte é em vão”.

Frente à incapacidade de angariar apoio de amplos setores da sociedade e das Forças Armadas, que se mantém leais ao chavismo, precisam recrudescer a violência para gerar as condições que levem à quebra democrática. São ações de caráter quase militar, impulsionadas pelos partidos de oposição Voluntad Popular e Primero Justicia, fortemente apoiados em uma estratégia comunicacional que visa gerar confusão e medo para fortalecer a narrativa de que o país está sendo tomado pelo caos, e, portanto, necessita de uma intervenção internacional. O que se deseja é uma transição violenta ao pós-chavismo, restaurando os privilégios históricos das elites do país.

Não se enganem: o que vemos hoje na Venezuela está muito longe de ser uma luta por “democracia”. Enquanto o chavismo opta por conclamar a sociedade ao debate, devolvendo ao constituinte originário o poder de decisão sobre o modelo de país que quer construir, a oposição opta pela sabotagem ao processo Constituinte e pela violência do paramilitarismo, que atinge desproporcionalmente os setores já historicamente marginalizados.

O que vemos hoje na Venezuela é a face mais cruel e violenta da luta de classes. É uma expressão nua e crua do neofascismo latino-americano, onde uma mãe como Inés Esparragoza, que teve o filho torturado e queimado vivo por uma turba de irracionais, é demitida por criticar a oposição que instigou essa mesma violência.

 

2 Comentários

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José Eduardo Garcia de Souza

11/06/2017 - 13h31

Mais uma vez, a inefável articulista dá prova da sua monumental incompetência e total devoção à causa Madurista, quando: 1) Menciona que o Chavismo quer “conclamar a sociedade ao debate”. Isto é mentira, na medida em que a “Constituinte” em que Maduro insiste é formada apenas pelos seus apaniguados. 2) Não há “narrativa de que o pais está sendo tomado pelo caos”. A Venezuela vive um estado de caos. 3) Ela menciona “4 jovens negros mortos”, como se a raça de qualquer pessoa pudesse servir de desculpa ou fator aumentativo de culpa para a violência, mas “esquece” de mencionar que a própria Procuradora-Geral da Venezuela, Luísa Ortega Díaz, declarou que desde 01 de abril foram registrados mil feridos em protestos, dos quais 771 civis e 229 agentes de segurança, com 346 bens imóveis saqueados ou incendiados, e que “Mais da metade das pessoas foram feridas devido ao uso da força pelas organizações de segurança do Estado”, disse ela à imprensa, em Caracas, num encontro em que não foram permitidas perguntas dos jornalistas. Luísa Ortega também informou que o Ministério Público abriu 1.479 investigações por atos de violência, que 19 agentes de segurança foram acusados de violação dos direitos fundamentais e que existem 18 ordens de detenção por executar. 4) A articulista tampouco menciona na sua diatribe incoerente – porque será? – que há 3 anos atrás, o Comitê contra a Tortura da ONU acusou a Venezuela de ser responsável pela tortura, maus-tratos e humilhações em mais de 3.000 presos detidos após a onda de protestos do início de 2014, e que para a ONU, a Venezuela atua(va) como se vivesse “em um estado de exceção”. Será que a articulista aprenderá um dia a reportar fatos em vez de distorcê-los de forma tão pueril?

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    licas

    17/09/2017 - 19h27

    Jose Eduardo Sousa:

    Muito bem observado . . .

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