O tour de Tillerson e o vira-latismo latino-americano

Não é curioso notar como a tal “crise” na Venezuela se converteu em um instrumento fundamental para o avanço e consolidação da presença dos Estados Unidos na região?

Poucos episódios refletem tão bem o atual contexto das relações entre os Estados Unidos e a América Latina quanto o tour que Rex Tillerson, atual chanceler estadunidense, acaba de fazer pela região. Antes mesmo de chegar ao México, seu primeiro destino, Tillerson já deu o tom da agenda, não só apontando para um ressurgimento da Doutrina Monroe, pilar do intervencionismo estadunidense na região, mas também sugerindo um golpe militar na Venezuela. É no mínimo curioso a retomada do discurso de intervencionismo militar justamente quando Washington eleva o tom das críticas à presença de Rússia e China na região. Como em política nada se inventa, tudo se recria, é sempre bom lembrar que o ciclo das ditaduras militares na América Latina foi parte da estratégia dos Estados Unidos para frear o avanço da influência da então União Soviética na região.

A viagem de Tillerson foi marcada por momentos, digamos, patéticos. Um deles, foi o chororô de Temer pelo Brasil ter sido excluído do roteiro de Tillerson, em mais uma amostra do anão diplomático que o nosso país voltou a ser.  Mas ainda mais patético foi ouvir Juan Manuel Santos afirmar que a Colômbia estaria pronta para prestar “ajuda humanitária” à Venezuela ao mesmo tempo em que celebra a renovação da extensão do Plano Colômbia com os Estados Unidos, justamente em um momento de recrudescimento dos assassinatos de líderes sociais na Colômbia.

Desde o ponto geopolítico, a visita de Tillerson foi, por um lado, uma resposta à cúpula China-CELAC, e, por outro, o reconhecimento do Grupo de Lima como a linha de frente para levar a cabo uma agenda coordenada de ataques contra a Venezuela, frente à impossibilidade de fazê-lo no âmbito da OEA, paralisada devido à falta de consenso dos países caribenhos. Não é por coincidência que a Jamaica, o único país do CARICOM a apoiar a agenda ingerencista da OEA, é também o único país Caribenho a ser visitado por Tillerson. No longo prazo, esse fortalecimento do Grupo de Lima pode ser usado para retomar os ataques à Venezuela no âmbito da OEA, onde os Estados Unidos exercem forte influência.

O tour de Tillerson já surte efeitos: Santos se pronunciou afirmando que o Grupo de Lima não reconhecerá o resultado das eleições presidenciais na Venezuela, e a oposição venezuelana desistiu de assinar um acordo com o governo depois de receber uma ligação de Bogotá, o que seguramente agravará ainda mais as tensões políticas no país. O presidente peruano, por sua vez, afirmou que o grupo emitirá um comunicado legitimando as sanções contra a Venezuela, e Macri colocou na mesa, assim como Tillerson, a possibilidade de um embargo ao petróleo venezuelano, com possíveis consequências devastadoras para a economia do país.

Não é curioso notar como a tal “crise” na Venezuela se converteu em um instrumento fundamental para o avanço e consolidação da presença dos Estados Unidos na região? E o que é ainda pior: nesse processo, os governos latino americanos jogam por terra anos de construção e consolidação de foros independentes de concertação regional. Tudo em nome de uma cruzada anacrônica ensejada pelos Estados Unidos.

Um comentário

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José Eduardo Garcia de Souza

09/02/2018 - 17h12

A articulista, como de hábito, dá mais atenção a narrativas grandiloquentes mas falsas para ocultar ou distorcer fatos em vez de realmente analisá-los. Isto porque:
1. Chamar a crise monumental da Venezuela de “a tal crise”, ignorando – apesar dos seus fortes pruridos nacionalistas e latino-americanos – o fato de que há em Roraima mais de 10.000 refugiados venezuelanos é erro ou omissão deliberada cuja classificação varia entre o pueril e o inacreditável, passando pelo lamentável. Mais de 10.000 refugiados não representam um pacote turístico ou viagem de compras, e não indiciam mero problema mas sim crise das mais volumosas e violentas.
2. imprensa brasileira, sempre tão ávida de ter com o que tascar Temer, não registrou nenhum “chororô” do governo brasileiro pela não visita de Rex Tillerson ao Brasil. Houve, é claro, o berreiro indignado e as lamúrias do costume vindos de publicações da esquerda menos esclarecida, bem como dos políticos e movimentos sociais do costume – o que já é de se esperar em qualquer caso.
3. Ela ignorou completamente que não houve necessidade de qualquer visita de Rex Tillerson ao Brasil, já que a intenção do governo brasileiro é a de intervir militarmente de maneira forte e decisiva caso Maduro queira dar uma de Leopoldo Galtieri para camuflar o estado desesperador da Venezuela e fazer da região de Essequibo a sua “Guerra das Falklands/Malvinas”. Prova cabal desta firme intenção é o fato de que a comitiva do governo que foi a Roraima para ver como resolver o problema dos refugiados venezuelanos chegou à base aérea de Boa Vista pela manhã, permaneceu lá e embarcou na tarde do mesmo dia para Georgetown e Paramaribo.

A crise na Venezuela não “uma tal”, mas sim algo concreto, enorme e que não pode e nem deve continuar sem resolução, já que quem paga o preço – fato que a articulista também omitiu – é o povo que Maduro diz representar e defender.

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