Eleições francesas vão se definindo em meio a escândalos e corrupção.

A Frente Nacional de Marine Le Pen tem a liderança dos votos, mas Emmanuel Macron está avançando e poderia ser a segunda opção para uma “final” com Le Pen.


 

Por Cristophe Ventura*

 

Bom dia a todos e todas de Paris, aqui na França, do nosso Velho Continente onde está surgindo um novo mundo ainda mais caótico, como digo sempre.

Esta semana na França foi uma semana um pouco louca em relação ao tema político, porque tivemos uma aceleração da campanha presidencial francesa, com ao mesmo tempo a progressão do caso François Fillon, o candidato da direita tradicional, a direita católica conservadora, que está muito mal, com muitos escândalos, suspeitas de corrupção contra ele e sua esposa (não vou entrar em detalhes do caso), mas a questão de saber se Fillon poderá continuar sua campanha está claramente sobre a mesa.

E há muitas suspeitas contra ele e o primeiro efeito no momento é que esse candidato que estava previsto ganhar a presidência em maio de 2017, atualmente não estaria na final, no segundo turno, se lemos as pesquisas de opinião no nosso país.

Há uma crise política muito forte dentro da direita para saber se se pode apoiar, continuar com esse candidato ou se precisa encontrar um plano B.

Isso é a primeira coisa. A segunda é que a semana foi marcada por encontros muito importantes com outros candidatos. Com Emmanuel Macron, o candidato de extremo centro, do centro direita-esquerda, esse espaço que temos na França e também de Jean-Luc Mélenchon que fez vários encontros, não posso precisar, e também Marine Le Pen e Benoît Hamon que é o candidato oficial do Partido Socialista para a eleição.

O que vemos é que as tendências estão mudando um pouquinho no nosso país porque a Frente Nacional de Marine Le Pen tem a liderança dos votos no nosso país mas Emmanuel Macron está avançando muito e poderia ser, digamos, a segunda opção para uma final com Marine Le Pen.

O resultado da vitória de Benoît Hamon nas primárias socialistas é que atualmente há uma divisão da esquerda entre Benoît Hamon e Jean-Luc Mélenchon e isso é um problema que terá que ser esclarecido no futuro, porque obviamente agora a esquerda poderia ficar fora do segundo turno, para deixar o segundo turno com a Frente Nacional, a extrema direita, e Macron, ou a direita tradicional se Fillon puder, digamos, dar respostas às acusações que há contra ele e sua esposa.

Bom, o tema é complicado e nos indica uma coisa: é a forma que tem na França a crise profunda do sistema político, dos atores do centro do sistema político francês, através, ao mesmo tempo, de problemas de escândalos de corrupção e também de divisão da esquerda, de fragmentação das correntes da esquerda, sem encontrar no momento uma nova formula, um novo assunto político.

E ao mesmo tempo, fora desse perímetro de centralidade política, forças novas, antissistema, como Le Pen ou Mélenchon, que têm um papel, um espaço crescente – apesar da dificuldade que tem Mélenchon com o retorno do Partido Socialista com Benoît Hamon – vamos ter um debate entre Mélenchon e Hamon nas próximas semanas, que eu gostaria de explicar um pouco mais.

O tema é saber se se pode reunir, afinal, organizar uma convergência entre esse Partido Socialista com Hamon, que está mais ‘a esquerda, que não é o polo social-liberal mais liberalista do partido socialista, ele é mais ‘a esquerda, muito mais, e Mélenchon com sua estratégia de construir mais além da esquerda, um novo projeto popular. Como, digamos, construir um novo povo, além do perímetro tradicional de esquerda. Esta é a estratégia de Mélenchon.

O problema é que Hamon no momento parece ter outra prioridade. Sua prioridade parece ser a seguinte: conservar o Partido Socialista, o aparato político, para se preparar para perder durante a eleição, mas deixar o partido para o futuro na oposição. Esta estratégia impõe, afinal, conservar relações com o polo direitista do Partido Socialista, com Manuel Valls, com os ministros, digamos, com o polo social- liberal do partido e não romper com eles.

E essa é a condição que Mélenchon impõe para uma nova convergência com Hamon. Sim, tudo se pode discutir para construir uma dinâmica junta, mas sim, a direita do Partido Socialista que necessita, digamos assim, ficar fora do tema.

O problema é que Hamon hoje assegura a todos seus deputados e também ministros, a possibilidade de ter digamos, novos mandatos para a Assembleia Nacional depois da eleição presidencial. E por exemplo, Hamon tem em seus candidatos para as eleições parlamentares pelo menos 16 ministros do governo de François Hollande que serão candidatos no seu partido para continuar.

Inclusive os ministros muito emblemáticos da vergonha neoliberal do Partido Socialista, como Manuel Valls. E isso no momento é um ponto de impossibilidade para avançar nessa teia de articulação entre esse Partido Socialista e a France Insoumise.

Esse será o tema que teremos que continuar nas próximas semanas, para ver o que vai acontecer dentro dessa parte desse espectro político digamos, da esquerda.

Portanto, temos de novo um cenário instável, não definido por enquanto, é preciso esperar, observar e obviamente atuar para ver o que se pode avançar, mas essa é a situação política que temos aqui na França.

E para terminar, eu gostaria de acrescentar que outro elemento terá uma certa influencia sobre o que poderia acontecer, é o resultado esperado do Congresso Vista Alegre II do Podemos na Espanha. Porque também é uma força nova, experimental em certos aspectos, mas que tem problemas de estratégia, também com relação à situação política espanhola, com relação à permanência afinal de um governo de direita, à permanência do PSOE, o Partido Socialista, em relação a político que se está mais fraco, não está morto. São problemas que tem que discutir sobre tudo, e podemos.

E vamos ver o que sairá desse congresso para saber como poderá ou não poderá influir também nos debates na esquerda francesa.

São os elementos que podemos ver esta semana aqui na França. E então continuaremos de novo no Nocaute quando, estou certo, novos elementos que poderão de novo mudar um pouco tudo isso, porque outro sinal desse tipo de crise estrutural são as acelerações, as oscilações que podem mudar totalmente a direção e a orientação de um processo, de uma dinâmica de uma situação político-social.

São esses elementos que vemos trabalhando aqui na França e em outros lugares na Europa e que vamos seguir com muito prazer para Nocaute.

Adeus.

 

Christophe Ventura é jornalista, redator-chefe do site “Mémoire des luttes” (www.medelu.org) e autor do livro “L’éveil d’un continent – Géopolitique de l’Amérique latine et de la Caraïbe” (Editions Armand Colin, Paris).

 

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