As faces do governo atual se definem pelo entreguismo, servilismo e a mesquinharia.

O servilismo daquilo que poderia se chamar política externa brasileira e que de política tem pouco, se expressa todos os dias. E se expressa de forma cômica. Porque nós procuramos defender uma plataforma internacional que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusa.

Imagens: Luís Villaça

 

Por Marco Aurélio Garcia

 

Uma das coisas positivas da crise que o Brasil está vivendo hoje é que a moçada está discutindo. Tem muita discussão, muito seminário, muita conferência. E isso é sinal de que há uma necessidade de afinar um pensamento crítico para enfrentar as dificuldades que nós estamos vivendo. Nesses encontros, debates, sobretudo nesses que estão mais concentrados em questões de políticas externas, tem sido recorrente uma pergunta: qual será a atitude do governo Trump em relação ao Brasil.

 

Isto é, qual o impacto que os Estados Unidos terão sobre a nossa política externa. A primeira pergunta que eu devolvo para quem me faz essa é: que política externa? O Brasil está sem política externa. O Brasil está numa grande encalacrada nesse particular. Porque, quando houve o golpe e no suposto que nós tínhamos uma orientação ideológica, esquerdista, bolivariana, enfim, os adjetivos você pode encontrar a vontade aí na sua estante, se disse: agora vamos ter uma política externa séria. Uma política externa que corresponda ao interesse nacional. Isso é complicado, entre outras coisas, porque o interesse nacional do Brasil, segundo esse governo, é muito estranho.

 

Qual é o interesse nacional do Brasil hoje? É congelar os gastos públicos nos próximos vinte anos. É destruir todo o sistema de seguridade social com essa nova lei da Previdência que está se tratando. É entregar o nosso petróleo a partir do qual nós íamos construir um grande fundo para financiar a Educação e a Saúde. É eliminar as leis trabalhistas que garantiam os direitos da população. Qual é o interesse nacional? Interesse pode ser, nacional de jeito nenhum. Então uma questão muito importante é saber em realidade o que efetivamente os Estado Unidos podem estar vendo no Brasil que lhes apresente algum interesse.

 

Do ponto de vista econômico seguramente alguma coisa. Eles estão entrando concretamente na área do petróleo, derrubando a Petrobras e tudo que pudesse cheirar a interesse nacional. Do ponto de vista das nossas grandes empresas o que aconteceu? Entraram no setor das empreiteiras. E aqui passivamente as autoridades aceitaram essa entrada dizendo: elas são corruptas elas têm que fazer acordos de leniência. Mas o que não se diz, em realidade, é que não são as empresas que são corruptas. Corruptos são alguns de seus diretores. Alguns estão presos, outros podem ser presos, devem ser presos. E as empresas têm de ser salvas porque são dezenas de milhares de empregos que estão aí. E sobretudo toda uma expertise que o setor nacional desenvolveu nesse período.

 

A terceira operação em curso e que é assustadora a forma pela qual eles entraram é a área da carne, carne de gado, aves, embutidos. Numa operação absolutamente desastrada e aproveitando os pecadilhos de alguns produtores, que sempre existiram diga-se de passagem, o que se fez foi dar um golpe, a partir dessa espetacularidade da ação da Polícia Federal, no comércio exterior brasileiro. E com isso abrir um espaço para que nossos concorrentes internacionais, dentre eles os americanos, possam aproveitar o rechaço que começou haver por parte de muitos países. Rechaço compreensível na medida em que nós mesmos estávamos fazendo a contrapropaganda dos nossos produtos. Tirante essas e talvez mais uma ou duas ofensivas que venham a ser feitas, muitas empresas estão sendo compradas (compram e fecham as empresas) para eliminar concorrência.

 

Tirante isso eu acho que evidentemente há um problema mais de fundo que tem que ser pensado que é um problema relacionado com o interesse, a importância geopolítica que o Brasil e a América do Sul podem ter para os Estado Unidos. Hoje não tem muito porque, entre outras coisas, os Estado Unidos não estão enfrentando grandes dificuldades aqui. Pelo contrário estão encontrando até algumas facilidades. O governo argentino é um governo mais a direita, o governo chileno está em crise, a direita ganhou as eleições no Peru, está tentando ganhar no Equador, a Venezuela está em crise. Enfim, em outros países não está muito melhor, se fala até em um fim de um ciclo progressista na América Latina. Vamos ver se esse ciclo está chegando ao fim ou não. Eu espero que não.

 

Mas isso tudo facilita uma questão: os Estados Unidos, nos últimos quinze anos, estiveram um pouco ausente da América do Sul. Porque aqui formou-se uma coalizão de países governados por forças políticas progressistas que não só faziam reformas econômicas e sociais e políticas no seu interior, como também foram capazes de desenhar uma política externa mais soberana. Que não foi só soberania nacional, foi soberania regional. Nós deixamos de ser, por um bom período e espero que isso possa durar mais tempo, aquilo que os ideólogos conservadores dos Estados Unidos chamavam a América Latina: quintal dos Estados Unidos. Pateo trasero, em espanhol. Deixamos de ser isso, passamos a ter personalidade. Criamos a Unasul, criamos o Conselho de Defesa Sul Americano, criamos a Celacc. Enfim, um conjunto de forças que defendia sobretudo a integração da região para que a América Latina pudesse ter uma presença autônoma no mundo, uma presença mais forte. Isso pode estar um pouco facilitado com esses governos conservadores e servis.

 

O servilismo daquilo que poderia se chamar política externa brasileira e que de política tem pouco, se expressa todos os dias. E se expressa de forma cômica. Porque nós procuramos defender uma plataforma internacional que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusa. Então nós ficamos meio pendurados no pincel. Estamos defendendo algo que os americanos não estão defendendo com a mesma fé. Nós somos a favor de uma globalização neoliberal e os Estados Unidos estão desglobalizando em certa medida a sua política. Claro que está tudo muito ainda confuso, mas de qualquer maneira é evidente que nós não estamos sintonizados com esse senhor que está feito um elefante em loja de cristal lá na Casa Branca.

 

No entanto, para desgosto daqueles que pensam no verdadeiro interesse nacional, nós vemos a multiplicação de gestos de servilismo por parte da nossa diplomacia. Ao lado de alguns gestos de mesquinharia. Comecemos pela mesquinharia. Outro dia a ex-presidente Dilma Rousseff esteve em Genebra e na sua agenda tinha a disposição de conversar com o diretor geral da Organização Internacional do Trabalho, Guy Ryder. Pois bem, a embaixadora do Brasil nos organismos internacionais em Genebra foi ao Guy Ryder pedir que ele não recebesse a presidenta Dilma. Evidentemente o Guy Ryder é um homem altivo, é um homem sério, é um homem de ideias, é um homem de convicções, recebeu-a. Mas ficou essa marca negativa. Poucos dias depois aí já não foi um gesto de mesquinharia, mas muito mais um gesto de servilismo, nós votamos no Conselho de Direitos Humanos da ONU contra uma moção que procurava estabelecer e criticar os riscos que apresentava para os Direitos Humanos as políticas de ajustes que estão sendo aplicadas pelo mundo afora. Evidentemente aí o servilismo também tinha algo de favorecer as barbaridades que estão sendo feitas aqui no Brasil. Eles sabem perfeitamente que políticas de ajuste como aquelas consubstanciadas na questão da seguridade social, das leis trabalhistas, dos cortes orçamentários, são absolutamente essenciais para esse governo conservador, reacionário que nós temos aí. E que tudo isso tem um impacto concreto sobre a vida de brasileiros e brasileiras.

2 Comentários

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Alan Silva

31/03/2017 - 06h16

Dilma falar em nome do Brasil nao dá. É piada de mau gosto. Faz vergonha.

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    Cecilia Maria

    01/04/2017 - 16h57

    Que tal se vc for falar em nome do Brasil?

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