A água é de quem?
A água é nossa.

No momento em que a Assembleia Legislativa do Rio privatiza a CEDAE, nosso correspondente na Espanha mostra que a água se converteu no novo tesouro do capitalismo. E mostra que tirar do povo o direito de propriedade sobre um bem comum, um direito da Humanidade, pode acabar em guerra, como ocorreu na Bolívia. Víctor David López*, de Madri.

 

Há muito tempo existe uma avidez que privatiza tudo. Saúde, educação, recursos naturais, segurança. O esquema é sempre igual: criação do problema e comercialização da solução. Primeiramente, desproteger a estrutura pública, fazer com que a população sinta vergonha dos serviços públicos. Assim vai ser mais simples fazer negócio depois.

 

Os salvadores da pátria vão abarrotar a conta bancária deles, e ainda por cima o cidadão vai acreditar que estão pensando nele. É normal escutar: “Os políticos roubam, é melhor ficar nas mãos dos empresários”. E o cidadão não sabe que na maioria das vezes é a mesma coisa. Os avarentos são os mesmos.

 

A água é o novo tesouro do capitalismo, existem múltiplos exemplos internacionais. O caso mais extremo surgiu na Bolívia, onde o Banco Mundial chantageou os bolivianos em troca de apoio financeiro. O serviço municipal da água foi privatizado, inclusive os direitos ancestrais dos indígenas, com poços e sistemas rurais. As Associações de moradores declararam guerra contra o governo. A Guerra da Água. O exército saiu às ruas, mas o povo ganhou. Hoje continua lutando por um ótimo serviço público de água, mas ganhou aquela guerra.

 

No Chile, o modelo atual de privatização começou na ditadura do Pinochet; os proprietários dos rios chilenos são europeus. Na Argentina, o governo de Carlos Menen privatizou o país inteiro. O povo uruguaio conseguiu um referendo nacional, o povo italiano também. Na França, em Paris, o povo conseguiu a criação de um novo serviço público de água.

 

A Espanha não está isenta das tentativas de privatização da água. O caso mais significativo é o de Madri, com a empresa pública Canal de Isabel II. Uma instituição muito importante no país, pelo patrimônio e pelas instalações que vem acumulando desde 1851. Uma tentação pro capitalismo, e um negócio sem concorrência. A empresa pública sempre foi bem avaliada pelos cidadãos, e sempre dava lucro ao final do ano. Porém, em 2008 o governo madrileno do Partido Popular, aproveitando a maioria no parlamento autonômico, aprovou a transformação do Canal de Isabel II em sociedade anônima, na qual 49% das ações seriam privadas. Eles falavam da dívida – criada por eles, desprotegendo a estrutura pública –, falavam da procura de um melhor serviço, como sempre. E mentiam.

 

A mobilização cidadã, dirigida pela Plataforma Contra a Privatização do Canal de Isabel II e a chamada Marea Azul, conseguiu sensibilizar vários partidos políticos e o resto da população. A tentativa de privatização, agora, está paralisada. A nossa resposta é essa: a água é pública. A gestão dela também, as infraestruturas também. A água é a origem da vida, é o futuro. A NASA procura água nos novos planetas, a água é o segredo da nossa presença.

A água potável, água para beber em todas as torneiras, em todas as fontes, é um direito da humanidade, um bem comum. A água é nossa. A luta contra a avidez privatizadora continua porque o capitalismo agora vem como neocolonialismo, e a roubalheira atinge até as necessidades mais básicas.

 

* Víctor David López é jornalista, editor literário e escritor. Colabora na Radio Nacional da Espanha e escreve no jornal El Español. Trabalhou nos jornais espanhóis As, Marca e La Razón. É co-diretor da editora madrilena Ediciones Ambulantes, especializada em literatura brasileira e sobre o Brasil.

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