Últimos dias em Havana: o universo dentro do quarto

Filme em cartaz do diretor cubano Fernando Pérez fala sobre companheirismo, vontade de ganhar o mundo e sobre ficar.

A escritora Hilda Hilst em uma pequena novela, em uma pequena narrativa do livro “Tu não moves de ti”, descreve um diálogo entre pai e filho em que o pai tenta explicar para esse filho como é andar de trem. O filho tem essa curiosidade e ela cria uma alegoria nessa pergunta.

Uma das explicações é que, no trem, por mais que o vagão se mova, “tu não te moves de ti”. Essa frase dá um título para um livro da Hilda Hilst que contém três narrativas e três narrativas breves conhecida delas. Eu fiquei com essa frase na cabeça depois que assisti a “Últimos dias em Havana”. Não explica exatamente o por que, pois as propostas são bastantes diferentes.

Na história da Hilda Hilst, ela está falando de um movimento, está falando de história, está falando como o curso da história acaba atravessando os indivíduos, e ao mesmo tempo os indivíduos têm relações muito incrustadas, ainda que sejam resistentes. E que por mais que a gente se mova, a gente não se move da gente mesmo. Essa é a linguagem que ela acaba criando nessa ideia de movimento.

No filme “Últimos dias em Havana”, do Fernando Pérez, um diretor cubano, talvez um dos mais cultuados cubanos da atualidade, essa ideia de movimento muda de enfoque.

A história se passa dentro de um quarto de uma pessoa que está morrendo. Essa ideia de que como tudo se move, como tudo se move da gente, como a história passa, como as macro questões atravessam a gente, e como a gente aborda isso e cria um cenário. Se a gente quiser contar a história, a contemporaneidade de um país, de uma realidade, como é que a gente filma isso, como é que a gente aborda isso dentro de um quarto.

Essa especificidade do filme, que entrou em cartaz no último dia 24 de agosto, chamou muita atenção. Tanto que eu fiquei com essa frase da Hilda Hilst na cabeça, “tu não moves de ti”.

Nessa história, o protagonista é cuidado por um amigo. A gente não sabe se um amigo, se é um parente, um irmão. Ele não consegue levantar da cama, tem os movimentos todos limitados por conta do vírus da AIDS. Já está com uma situação de saúde bastante agravada e debilitada. E ele é cuidado por esse amigo que tem uma rotina muito simples. Ele está preso a uma rotina ali: lava pratos, cozinha em um restaurante em Havana e o sonho dele é sair daquele país.

O filme trata uma relação de amizade entre duas pessoas completamente diferentes. A pessoa que está para morrer é homossexual, está sofrendo e por mais que tente lidar de forma imaginativa, narra muito, fantasia muito. Ele tem uma busca pelo mundo, que o mundo vá à beira da cama dele e isto está muito claro em uma das cenas. Ele tem essa vocação de tentar levar as coisas com uma certa leveza, diferente do amigo, do personagem que cuida dele, que leva comida na cama para ele, que é um personagem mais sisudo.

O que está para morrer tenta levar tudo com bom humor, mas ele tem medo de que este mundo se acabe a qualquer momento. É o medo da morte, medo do aprisionamento. A situação de alguém que tem a saúde debilitada e não consegue levantar da cama. Isso é central na vida dessa pessoa e na vida dos que estão ao redor.  E como essas relações vão se criando, porque o amigo tem uma espécie de dever moral de cuidar dessa pessoa, por mais que, de uma certa forma isso, atravesse também o sonho dele de sair daquele país, daquela realidade.

Mas como é que a gente sai de realidade, lembrando a Hilda Hilst, se a gente não consegue se mover da gente mesmo? O filme tem um olhar bastante sensível e ao mesmo tempo triste na vida desses personagens. Tanto que ele não consegue se mover dele mesmo quando ele consegue fazer essa travessia. Ele deixa de ser um empregado, um servo, um servidor dali, de um restaurante em Havana, para servir no McDonald’s nos Estados Unidos. Um lugar absolutamente frio, em um lugar que ele não conseguiu mover dele mesmo, toda aquela vontade que ele tinha de ganhar o mundo.

E na relação dessas duas pessoas outras narrativas paralelas vão sendo construídas. Então, o que o filme vai mostrando: uma vizinha, que tem também uma visão limitada, sofrimento e prazeres, tristezas e alegrias. Essas construções também são muito dependentes das relações que a gente cria. É uma vizinha que vive em pé de guerra com o marido, que quer sair de casa o tempo todo, que não para em casa. É praticamente aquela pessoa que abandona aquela casa e a pessoa sofre com isso.

Tem a história de uma menina de 15 anos que está grávida. Por trás de todos os sonhos que ela constrói, ela quer cuidar de animais, quer ter cinco filhos, ela tem toda essa característica dos adolescentes, com o contraste, com os homens ali no fim da vida, sem perceber que a condição dela também como mulher. Uma pessoa que vai ter que cuidar dos filho a partir daquele momento e se relacionar com homens que também vão sair de casa, que também vão buscar outras demandas fora. Ela fica com uma relação de ir e vir muito limitada, a partir do momento em que ela passa a ser a cuidadora da casa e precisa colocar os sonhos dela de outra forma, em segundo plano.

Obviamente a história está atravessando todos esse personagens, mas, ao mesmo tempo, as questões mais próximas e mais ordinárias da vida de cada um acabam sendo determinantes. Que grau de liberdade e de que maneira eles podem ir ao encontro dos próprios sonhos, se elas não conseguem se libertar delas mesmas? E há uma questão central, que é, se a gente está preso em um corpo, a gente está preso em relações.

Estas duas perspectivas entre a jovem que ainda está começando a vida, que ainda está começando a fazer planos e está começando a tropeçar nessas limitações, os personagens que estão em uma etapa da vida em que o grande medo deles é que aquele mundo acabe a qualquer momento.

Voltando à Hilda Hilst, a gente se move, o trem se move. A gente pode pensar nisso como uma alegoria: não te moves de ti. Agora gravando o vídeo, eu consigo pensar por que esta frase da Hilda Hilst me ficou tanto na cabeça no fim deste filme. É um filme a gente assiste, chega no final: “Tá, por que esse filme me tocou? Parece que não aconteceu nada neste filme”. Parece que ele peca no movimento. No dia seguinte você começa a lembrar das cenas, começa a fazer umas conexões e fala: ele não está falando da situação ou nem querendo fazer nenhuma leitura aparentemente muito politizada da coisa, — na perspectiva da história, ele está falando de todos nós. Nós temos uma contingência e uma demanda uma urgência.

É uma questão de perspectiva. Quando a gente tem 15 anos é uma coisa. Quando é adulto é outra. Quando a gente está a beira da morte é outra. É um filme bastante existencial. É minha dica desta semana. Um grande abraço e até a semana que vem.

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