“Invisível” aborda o tema da gravidez indesejada

Na semana em que foi aprovada pela comissão especial da Câmara dos deputados a PEC que proíbe o aborto, mesmo em casos de estupro, Matheus Pichonelli fala sobre o filme argentino "Invisível". A obra mostra o desamparo que a sociedade impõe às mulheres que passam por uma gravidez indesejada.

Na semana em que deputados aprovaram em um comissão especial da Câmara regras mais rígida para o aborto no Brasil, estreia por aqui um filme argentino do Pablo Giorgelli, que fala exatamente sobre esse tema. A história de uma garota de dezessete anos. No último ano do ensino fundamental que se descobre grávida. Ela passa ali por uma situação de gravidez indesejada.

 

É um tema muito complexo que envolve muitas paixões. Sobretudo religiosas, a gente está falando da Câmara no Brasil que se organiza em bancadas e que os argumentos quase nunca levam em conta a situação de quem vivencia. Numa questão tão complexa como uma gravidez indesejada, o filme tem o mérito de dar o protagonismo para uma personagem. Ele simplesmente acompanha a rotina dela quando ela se vê nesse conflito.

 

Durante boa parte do filme a gente só vê o rosto dessa personagem chamada Ely. A gente vê ela indo para a escola, ela voltando para casa. Uma rotina muito simples ali no bairro de La Boca, em Buenos Aires. E a gente não sabe. Ela não discursa. Ela não elaborou o que está se passando por ela. E ao mesmo tempo a gente percebe a situação de completo desamparo ali. Ela passa a ser uma criminosa se ela resolver não levar adiante a gravidez. E a câmera acompanha o rosto dela. É uma personagem sem maquiagem. É uma personagem que não tem o discurso pronto. Não tem uma ideia pronta do que fazer e não sabe para onde correr. Ela circula, essa câmera acompanha esse rosto amedrontado naquela cidade.

 

Ela por algum motivo não pode contar com a mãe naquele momento. Também é uma trabalhadora ali numa situação de vulnerabilidade no trabalho em um colapso emocional ali, quase uma depressão. E a figura do pai é completamente ausente. Conforme a câmera se desloca a gente vai percebendo um pouco do mundo dela. Uma impessoalidade na escola, nos lugares onde ela passa, nos médicos e tudo mais. Os caminhos que ela precisa percorrer para tentar ter, pelo menos, um apoio psicológico para saber qual é a melhor medida. Tanto que o único amparo dela é procurar no Google sobre o que fazer porque ela vivencia tão poucas perspectivas na vida.

 

Então é uma decisão muito complexa que a gente não sabe se ela vai tomar ou não. Mas ela, com certeza, se pergunta. A grande sacada do filme é que essa pergunta não é feita. A gente acompanha o sofrimento dela e o alcance da visão dela naquela rotina. A gente só acompanha o rosto dela e a visão dela por essa cidade. Nessas voltas que ela dá pela cidade em busca de uma resposta.

 

Mostra como na nossa sociedade e na Argentina não é diferente do Brasil, essas esferas de acolhimento e esse debate sobre perspectivas não é feito. Ela precisa sempre circular num território da ilegalidade que leva a uma situação de risco.

 

Tem uma cena que quando ela vê um medicamento abortivo ali e seria uma solução, ela vê tudo o que o corpo dela vai passar, sem nenhum tipo de atendimento médico, sangramento e tudo mais. O tipo de risco que ela corre porque ela não tem para onde levar esses questionamentos.

 

Então, no momento em que as pessoas têm tanta opinião formada sobre isso, pessoas que não vivenciaram isso. Sobretudo homens que têm opinião formada sobre a questão do aborto, sobre o que é imoral, o que é um crime o que não é. É um filme que dá o protagonismo para essa personagem e ao mesmo tempo não tem discurso. Não é um filme nada panfletário. Ele não está tentando te convencer de nada. Ele só está mostrando como essa situação não é tão simples como a gente imagina como as pessoas querem fazer passar quando passam projetos como esse goela abaixo por uma questão de princípio religioso e que no limite leva a questão humana basicamente para o lixo. Como a gente trata mal, como a gente não sabe acolher. O título é Invisível, é justamente isso. Ainda bem que existe o cinema para emprestar a câmera para tentar pelo menos imaginar e se colocar no lugar de alguém que passa por uma situação como essa.

 

Esse filme estreia essa semana no Brasil e é minha dica. Um abraço e até a próxima.

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