Em cartaz, “A Trama” é crônica das tensões políticas do século 21

Do mesmo diretor de "Entre os muros da escola", filme francês problematiza questões contemporâneas como extremismo na política, preconceito e xenofobia.

Se você gosta de cinema francês, você deve se lembrar do filme “Entre os muros da escola”. É um filme vencedor de Cannes na virada da década passada e que foi muito discutido sobretudo nas escolas, em sala de aula, porque ele conseguiu trazer para a sala de aula todas as tensões que existiam de fora, da porta para fora.

Era um professor que estava diante de uma classe. A típica sociedade francesa multifacetada. Você tinha ali a ala dos imigrantes, o imigrante árabe, o imigrante africano. Você tinha os franceses, o francês da periferia, e o professor estava diante basicamente das tensões que ali existiam.

Nessa sociedade, como você dá um sentido naquilo que você vai ensinar para um grupo tão heterogêneo? As pessoas tentando entender algum sentido para aprender gramática, se eles não falavam aquilo na rua. Eles não conseguiam ver tanta praticidade naquilo viam ali no quadro negro sobre literatura e tudo mais, Balzac.

É um filme que mostrava (a gente acompanhava esse professor) os desafios desse professor de uma sociedade que é multifacetada, mas que também estava em processo de transformação. O acesso à internet, smartphones. Enfim, isso estava começando ali,

Quase 10 anos depois, o diretor Laurent Cantet lançou agora, que no Brasil chegou na semana passada, o filme “A Trama”. Em francês é “L Atellier”, que é a história de uma oficina literária conduzida por uma autora de romance policial que coloca na mesa jovens de diferentes origens, de diferentes perspectivas para escrever e para falar um pouco sobre a vivência delas, sobre a vida delas numa cidade portuária. Uma cidade onde um estaleiro está em decadência e que não existe mais. No rastro dessa destruição, aquilo virou uma grande cidade fantasma. Os próprios alunos viram que aquilo se tornou um grande cemitério.

Então, o desafio é elaborar e fazer um contra do passado e pensar em uma história a partir disso. Só que, quando eles começam a escrever, os alunos trazem à tona muitos dos tabus e fantasmas que a próxima francesa, eu acho que nenhuma sociedade né verdade, quer debater.

Eles querem falar sobre o terrorismo, sobre o medo do terrorismo sobre o medo do terrorismo sobre o medo outro, sobre discursos de ódio. Enfim, a própria forma, como se a trama fosse construída em um projeto aparentemente coletivo. Ela é invulnerável a essa nuances. Quem vai ser o assassino? Quem vai ser o morto? Vai ser uma minoria? Vai ser uma reação a um tipo de violência hegemônica.

Em certo momento, a professora começa a notar que um destes alunos é muito agressivo ali com os próprios colegas. O que ele mais demonstra é medo do imigrante. Ele tem um discurso mais próximo ali da xenofobia.

Ao mesmo tempo ele é o mais vulnerável a incorporar um discurso violento fundamentalista no seu comportamento no seu padrão de vivência. Ela começa a investigar esse aluno e a partir deste momento a trama passa a ser essa relação da professora com o aluno. Então ela começa a acompanhar o que ele posta nas redes sociais, ela vê quem são os amigos dele e vê que é um jovem perdido na vida. É um jovem solto sem perspectiva. E ele fica muito vulnerável a discursos de pessoas no YouTube, uma espécie de guru entre a molecagem, e ele vai falar: “olha, a sua família corre risco. Você precisa se armar. Existe um inimigo global aí que quer destruir você. Você precisa reagir a isso”. E esse gurus dão um certo sentido para esse sofrimento não elaborado por esses jovens, e eles acabam caindo nesse discurso.

É um discurso que a gente vê muito por aqui também. As pessoas trabalham como esse afeto fundamental, que é medo para vender uma solução de uma salvação, vai vender uma resposta que já não funciona, uma resposta no passado, uma liderança nacional dizendo que vai proteger algo que está prestes a ser destruído. No caso, aí, um valor cultural e familiar muito próprio naquela sociedade multifacetada.

Esse jovem se torna um jovem agressivo e a professora em determinado momento se pergunta de que maneira essa agressividade pode virar, sair do discurso e se tornar um perigo, uma questão de segurança pública.

Esse jovem vai se armar, vai colocar em prática o que ele está discursando. De que maneira ele elaborar essa violência, para ele, pode ser um escape ou pode ser um roteiro para o que ele vai produzir.

A professora começa a se questionar do próprio papel dela. De que maneira ela pode interferir nisso, intervir nesse destino. Isso entra também em uma discussão de representação, em que maneira a representação da violência é o foco da violência que a gente vivencia.

E é possível deixar essa violência de fora? Boa parte destas discussões quando eles pensam nessa trama, que acaba virando uma trama policial, é inevitável que eles falem dos atentados que a França observou nos anos recentes. Eles falam da boate Bataclan, eles falam dos atropelamentos em Nice. Tudo isso foi acontecendo durantes as gravações desse filme.

Então, esta oficina com atores, antes amadores, que Laurent Cantet trouxe esses atores para criar justamente, um retrato mesmo dessa sociedade francesa de como os jovens vivenciam isso. Mostra que existe uma energia represada ali daqueles jovens que não tem espaço para discutir aquilo e que acabam encontrando na literatura um sentido de elaboração.

Esse sentido de elaboração, nesse jovem, que é mais agressivo, torna-se um alerta para essa professora. De que maneira ela pode intervir nisso, ou não, se ela pode deixar isso seguir, ou não.

Essa experiência violenta que ele demonstra ali no relacionamento com os amigos e na escrita, uma escrita dele também completamente cruel uma escrita completamente seca. Mas aquilo também seria uma vazão de algo que não foi elaborado, e que de alguma forma migra para a literatura e que não migraria para a vida real.

Enfim, são perguntas que a gente se faz de um filme que deixa a gente com muitas perguntas.

De alguma forma retoma aquela turma de “Entre os muros da escola”, mas atualiza com todas essas nuances de uma sociedade de hoje, que está muito mais ligada na internet, a esses gurus de YouTube, a realidade virtual.

Ali tem longas cenas deles jogando videogame. A gente está falando de uma juventude que numa cidade não apresenta mais perspectivas. Para eles, é uma sociedade que foi vivenciando todo tipo de violência e todo o tipo de notificação de violência, e que vão precisar elaborar isso de alguma maneira. Ou por uma vivência também violenta, ou pela, no caso dos oficinas, literatura como forma de compreensão, de busca do passado, mas também de apreensão do futuro. E é disso que esse filme fala.

Essa é minha dica dessa semana. “A Trama”, de Laurent Cantet. Um abraço e até a semana que vem!

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