É carnaval? Então desfrute esse biscoito finíssimo chamado Adoniran Barbosa.

Figura simbólica da cidade de São Paulo, considerado o "pai" do samba paulista, Adoniran Barbosa foi criador de uma linguagem única. O nosso "Charles Chaplin brasileiro" sabia explorar como poucos a fronteira entre o trágico e o cômico.

“São Paulo é o túmulo do samba”: a famosa frase foi dita por Vinicius de Moraes ao amigo Johnny Alf, então morador da cidade, ao justificar porque tinha que voltar ao Rio de Janeiro. Vinicius não poderia imaginar que anos depois assinaria uma parceria com Adoniran, o samba “Bom dia tristeza”. Adoniran provou que Vinicius estava errado. São Paulo é bom de samba.

Adoniran Barbosa era o nome artístico de João Rubinato, nascido a 6 de agosto de 1910 em Valinhos (interior de São Paulo) e falecido na capital paulista em 23 de novembro de 1982.  Foi um dos sete filhos de Francesco Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos de Cavarzere que desembarcaram na cidade de Santos em 1895.

Abandonou os estudos ainda no curso primário e fez de tudo um pouco para ajudar a pagar as contas de casa: foi balconista, tecelão, garçom, entregador de marmitas, encanador e pintor de paredes. No início dos anos 30, com 22 anos, Adoniran era vendedor de tecidos e andava pela cidade entregando encomendas. Logo descobriu que no Largo da Misericórdia, n°4, ficava o estúdio da Rádio Cruzeiro do Sul. Não demorou a se enturmar com os radialistas e artistas que encontrava na porta da rádio. Pouco tempo depois, largou o emprego de entregador de tecidos e iniciou carreira artística como radioator. Foi quando mudou seu nome para Adoniran Barbosa. A escolha foi uma dupla homenagem: a um colega chamado Adoniran Alves e ao sambista Luiz Barbosa.  Além de radioator, Adoniran Barbosa foi ator de novelas e de cinema antes de se consagrar como sambista.

Adoniran Barbosa por Elifas Andreato

A convivência com as camadas populares fez de Adoniran um conhecedor das mazelas e da linguagem do povo. Com seu olhar de cronista e seu humor tragicômico, retratava o cotidiano de bairros habitados por imigrantes e operários como Bixiga (Bela Vista), Casa Verde e Jaçanã, sem nunca deixar de se solidarizar com seus personagens.  

Em 1980, Elifas Andreato foi convidado a ilustrar a capa do LP que homenageava os 70 anos de Adoniran Barbosa. O artista plástico retratou num desenho o palhaço triste que sempre vira em Adoniran. O diretor da gravadora, no entanto, achou a imagem ofensiva e pediu outra ilustração, que acabou se tornando a capa. Meses depois, Adoniran viu o retrato original e ligou para Andreato: “Elifas, eu sou esse palhaço triste, e não o alemão que você pôs na capa do disco”.

 

Assista à reportagem do Nocaute:

 

Pelão: São Paulo é bom de samba. São Paulo teve muito samba.  

 

Pelão: A história é um pouquinho longa, mas vamos lá. Conheci o Adoniran em um barzinho. Sempre. Eu não conheci grandes amigos em nenhuma leiteria ou farmácia ou em hospital nenhum. Eu adorava as músicas dele, e perguntava porque ele não tem um belo LP. Ele falava: ninguém quer. Aí falei: um dia eu faço um pra você.

 

Pelão: Eu, moleque revoltado, radical, não coloquei nenhum texto na contracapa. Coloquei uma foto antiga da avenida São João. O disco fez um puta sucesso.

E aí fizemos o segundo disco do Adoniran. Chamavam ele de analfabeto. Falei, bom, já que ele é analfabeto, o Antonio Candido que vai escrever. E ele prova que não era nada disso.

 

Fabiana Cozza: Eu acho que o potencial cronista dele é o que sempre me saltou. A coloquialidade do texto, o dia a dia nas suas letras colocado de uma forma crua. Poética, mas também crua.

 

Fabiana Cozza:Agora, a minha primeira experiência cantando Adoniran foi com orquestra.   

 

Fabiana Cozza: Em um segundo momento, eu cantei Adoniran convidando o Emicida. E aí eu tive, por conta do Emicida, a dimensão da literatura, da escrita dele. Porque o rap tem essa questão coloquial o tempo todo. Essa fala que está nas ruas. E que também está localizado num segmento menos favorecido, pobre, marginalizado e ele também estava nesse lugar.

 

Carlinhos Vergueiro: O Adoniran era uma aula dando um show, de presença, ele era um ator. E o torresmo eu fico muito contente porque sempre que se faz um apanhado da obra do Adoniran, o torresmo está sempre ali.

 

Carlinhos Vergueiro: A gente estava de pé no balcão de um boteco na rua Major Quedinho, chamado Mutamba e veio um samba inteiro, sem violão, sem caixa de fósforo, sem nada. Nós fizemos um samba todinho, eu e o Adoniran nesse boteco. E eu cheguei em casa registrei o samba, mas eu encontrava o Adoniran e ele não falava nada. Eu também não falava nada. Pensava, será que o Adoniran não gostou? Será que ele se esqueceu?

 

Carlinhos Vergueiro: Depois de algum tempo, o Adoniran me ligou e falou: Vem até aqui em minha casa (ele morava em Cidade Ademar), porque a Clementina vai gravar. Clementina, ele e eu. Ele fez duas observações na letra. Tem um pedaço da Letra que diz: e você beleza o que é que você trouxe? Arroz com feijão e bife à milanesa. Aí ele pediu para tirar o bife e substituir por torresmo. E eu perguntei à ele: mas, porque torresmo, Adoniran? Ele falou: porque não existe. Eu não discuti, voltei a fita, toquei o samba e quando chegou nesse pedaço ele me interrompeu novamente e falou: Carlinhos, canta só um torresmo. Eu falei: mas porque, Adoniran? Ele falou: porque é mais triste.

 

Eduardo Gudim: Eu até brincava que a alma do Adoniran era tragicômica. Eu falava que ele era o Charles Chaplin brasileiro. Que é aquela fronteira entre o trsite e o alegre. O engraçado e o triste. É uma coisa que é difícil de fazer. Tanto que o Chaplin só tem um e o Adoniran também.

 

Eduardo Gudim: Era uma habilidade dele. Ele foi criando isso. Tem um trabalho de um grupo chamado João Rubinato, um grupo que pesquisou ele. Músicas da década de 30, esse humor que ele tinha, de repente vai se transformando nesse humor atual, já na década de 40. Quando ele faz essa surpresa que não é o humor comum, ele já vai criando essa ideia.

 

Tomás Bastian: Nossos shows, nossa pesquisa era baseada nisso. Nas biografias, pesquisas, livros que foram feitos e nessas obras menos conhecidas. O primeiro trabalho que a gente fez foi tentar reunir o máximo de gravações do Adoniran. Catalogar essa obra musical dele e reunir a maioria desses registros.

 

Pelão: Até hoje se você sair no centro da cidade procurando o Adoniran, você acha. Sai andandando pra você ver. Aquele, aquele outro. Olha lá o Adoniran.

 

4 Comentários

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portes

12/02/2018 - 19h31

No meio desses “pequenos moro, gilmar, aécio, bolsonaro, etc, recordar o grande Adoniran me faz menos infeliz por alguns momentos!

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Moacyr Medeiros Alves

11/02/2018 - 15h11

Dos sambas do Adoniran, o que mais gosto não foi muito divulgado, não tendo caído talvez por isso, no agrado popular.
Mas acho uma das músicas mais sensíveis do cancioneiro popular brasileiro, e não me canso de ouvi-la.
Para quem tiver a curiosidade de ouvi-la dou o endereço: https://youtu.be/WKSzf-5StY0

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Moacyr Medeiros Alves

11/02/2018 - 14h43

Não deixem de ouvir o samba “Despejo na favela” do Adoniran. Não foi muito divulgado nem é muito cotado no agrado popular, mas é, pra mim, seu melhor samba. Nele, o Adoniran mostra a grande sensibilidade que possuía, num samba alegre e ao mesmo tempo, triste. https://youtu.be/Zy936ByRQyQ

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José Eduardo Garcia de Souza

09/02/2018 - 18h17

Que excelente reportagem sobre o grande Adoniran Barbosa. Dá gosto vê-la e revê-la vezes sem fim. Parabéns!

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