As boas novas do cinema brasileiro

Veja as dicas do jornalista e colaborador do Nocaute, Matheus Pichonelli, sobre dois filmes brasileiros: 'O Animal Político' e 'A Mulher do Pai'

 

Por Matheus Pichonelli

 

Dois filmes brasileiros que me chamaram muito a atenção: um deles é “O Animal Político” de um diretor chamado Tião, só Tião. Eu não conheço o trabalho dele ele conta a história de um sujeito que percorre as ruas de uma grande cidade, no caso Recife, onde é baseado o filme. Ele espera o ônibus, ele sai com os amigos, ele frequenta shopping, ele estuda, enfim, faz o que qualquer pessoa normal faria, com a diferença que ele é uma vaca. O filme acompanha a trajetória de uma vaca, um animal na esteira da academia, dentro do ônibus, dentro do trem, ele anda pelas ruas. É uma forma de mostrar esse caráter bovino da nossa rotina nas grandes cidades. E o filme acompanha uma transição desse personagem, essa vaca, da cidade para o campo. Ele volta pro deserto e lá ele encontra um aparelho que vai dar algumas respostas fáceis para qualquer tipo de pergunta que ele formular, talvez uma referência aí ao Google, no meio de um deserto de ideias que a gente vive nos tempos atuais. Brincando com um pouco com essa máxima aristotélica de que o homem é um animal político, para brincar um pouco com essa nossa vida bovina que busca respostas fáceis para tudo e de uma forma bastante afobada no ritmo das grandes cidades. A má notícia é que esse filme já saiu de cartaz, mas a distribuidora diz que em breve vai informar quando estiver disponível em streaming.

No extremo sul do país, quase na fronteira com o Uruguai, foi rodado um filme que agora entrou em cartaz na última quinta-feira, chama “Mulher do Pai”. É a vida de uma jovem que tem lá seus dezesseis anos que vive com a avó e o pai, numa casa muito simples num vilarejo, um dia essa avó morre e ela tem que lidar com o pai que desde o começo do filme não está muito claro qual o grau de parentesco entre eles. Não dá pra saber se é um irmão mais velho, um primo distante, porque esse pai é muito frio com a filha, a filha é muito fria com o pai, esse pai é cego. A partir desse ponto, o filme ganha uma complexidade e um caráter de simbolismo que é muito claro na fotografia que é muito sombria.

Ele vai mostrando uma casa muito pouco arejada, talvez como uma forma de mostrar como as relações familiares se dão no escuro. E a partir daí você cria uma série de simbolismos nesse filme porque a fotografia muda. A casa começa a ficar mais iluminada, mais arejada e a relação entre eles começa a ser reconstruída a partir da morte da avó, que cuidava de todo mundo daquela casa, era super protetora, fazia o jantar e que representava uma espécie de resguardo moral naquela casa, ela deixa de existir e deixa também de ser um intermédio de linguagem entre pai e filha. E como eles estão na fronteira, você tem a figura dos uruguaios que estão nesse vilarejo, uma professora uruguaia que descobre que esse pai tem uma vocação artística mal desenvolvida, por conta da limitação visual.

Ao mesmo tempo, a filha também se interessa, começa a ter um relacionamento com um estrangeiro. Isso começa a permear uma série de ciúme entre pai e filha. Um filme que poderia ser como qualquer outro de relações e tensões familiares com todos os clichês possíveis da redescoberta do amor e tudo mais, mas na verdade ele mostra como essas relações de proximidade, essas construções de interdependências num ambiente familiar é muitas vezes opressor, quase um achaque emocional, na medida que as pessoas vão desenvolvendo outros interesses para além daquela casa. Quando você abre a janela, quando você escancara e areja os afetos, você lida com isso de duas formas: ou como algo natural do ser humano, das relações afetivas e familiares ou como um problema. Um problema que você passa a boicotar a partir de então. Isso num campo de ciúmes, de um afeto contraditório, que é essa relação que é construída de uma forma bastante densa e ao mesmo tempo muito bonito. A diretora explora esse território de uma maneira muito sutil e muito competente para mostrar esse estado de espírito nessa casa.

Então, esse filme é minha dica da semana: “A Mulher do Pai”. Está em cartaz, diferentemente do “Animal Político” que em breve vai ser disponibilizado em streaming, e a gente volta a falar sobre ele e sobre as novidades do cinema brasileiro por aqui. Até semana que vem. Um abraço.

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