Primeiras considerações sobre estupro

Ana Roxo está de volta ao Nocaute! E a reestreia é com uma série de vídeos sobre estupro: de onde vem a cultura do estupro? Quais são as leis sobre violência sexual? E por que o estupro é o único crime em que a vítima precisa provar? Acompanhe.

 

Estava com saudades de mim? Voltei. Eu tirei férias, depois emendei com crise existencial, depois estava difícil. Mas agora eu voltei. Se você não estava com saudades, você pula o vídeo, ignora. Está bom? Vamos continuar.

Mas a gente voltou com um tema, nós vamos fazer uma série de vídeos e é um tema denso, difícil, mas que a gente nunca fala o suficiente. O tema é estupro.

A gente tem começado a falar ultimamente de estupro como cultura do estupro. Porque é importante a gente entender o que significa a cultura do estupro.

Porque a gente tem que primeiro a gente tem que tirar da frente o fato de que estupradores são seres doentes mentais, malignos, que saem de trás da moita e atacam mulheres no escuro. Porque se fosse isso era só a gente não andar no escuro e não passar perto de moita. Era só simplesmente a gente tirar essas pessoas do convívio social que o problema acabava. E, se fosse assim ia ser muito simples porque o estuprador ia ter algum tipo de arquétipo, ia ter uma figura, algum tipo de espectro que a gente conseguisse ler na testa dele os atos, no olhar dele, de algum jeito, a insignia estuprador.

Mas a realidade que a gente tem é que muitos homens, boa gente, inclusive os de esquerda, inclusive os jovens bonitos, inclusive os atraentes, estupram. O estuprador não é aquele homem feio, que não tem sexo, e portanto ele vai atrás de você.

Esta frase feminista que diz “todos os homens são potenciais estupradores” é uma frase dura. Eu entendo que vocês homens se ressintam disso. Mas é uma frase real. Se a gente não delimita isso, você também homem perde o parâmetro de quando você pode estar agindo como potencial estuprador.

Porque você pode ser casado e ter estuprado a sua mulher. Porque estupro acontece toda vez que uma mulher não quer transar, e é obrigada a isso. Que uma mulher não quer ser tocada e é tocada. Porque estupro não é uma questão de sexo. É uma questão de violência. Quando você fala sexo sem consentimento. É violência sexual sem consentimento.

Então vamos começar, assim, pelo básico. Por que é tão difícil para uma mulher denunciar os casos de estupro? Uma das coisas que a gente percebe é que a gente não sabe nem como reconhecer o que é estupro. Muitas mulheres reconhecem que foram estupradas depois de muito tempo, e isso não entra nos dados também porque eu não posso fazer um b.o.

Eu tenho pouco tempo para fazer um b.o. Eu tenho pouco tempo para fazer um exame. O estupro, por exemplo, é o único crime que a gente tem que provar que aconteceu. Se eu chego, faço um b.o. e digo que minha carteira foi roubada, ninguém fala “tem certeza?”. “Você não estava andando com a carteira meio assim, exibindo?”. Ninguém pergunta isso.

No estupro, não. A primeira pergunta quando uma mulher fala “eu fui estuprada” é “você tem certeza?”. “Com que roupa você estava?”. “Você estava bêbada?”. Ninguém pergunta isso com um crime de furto, com um crime de roubo. Mas perguntam isso no caso de estupro porque a gente tem uma cultura machista, uma cultura do flerte muito idiota, em que uma mulher ela sempre tem que dizer não. Quando uma mulher diz sim é um problema. Só que se uma mulher tem sempre que dizer não, como é que vocês vão saber que a gente está dizendo não mesmo.

Só que às vezes a mulher não tem condição de dizer não porque ela está em uma condição muito vulnerável. Talvez isso comece nestas lendas infantis de que os príncipes beijam princesas adormecidas. Gente, se a pessoa está adormecida, não é para beijar. É para deixar ela lá adormecida, viu?. Deixa ela lá quietinha. É muito difícil falar sobre isso também porque no fim das contas essas situações de vulnerabilidade quem tem que se expor, expor a sua violação, a sua condição sexual é a mulher.

Muitas vezes, em muitas delegacias, nas delegacias da mulher, são delegados homens, que não acreditam na palavra da mulher. A palavra da mulher é desacreditada em todos os âmbitos. Quando chega ainda no âmbito de ela ter coragem de ir a uma delegacia e falar que foi estuprada ela tem ainda que ouvir um “tem certeza?”. E fazer um relatório com olhares julgatórios da roupa que ela estava, onde ela estava.

Precisa tirar da frente o fato de mulheres serem estupradas só bêbadas e à noite, tá? Mulheres são estupradas à luz do dia, mulheres são estupradas trabalhando, mulheres são estupradas nos seus terrenos sagrados, como é o caso da mãe de santo que aquele fofo estuprou.

Então, as mulheres são estupradas em muitos lugares porque o corpo da mulher é público. O corpo da mulher não é dela. E a luta contra a cultura de estupro é também uma luta para trazer para a mulher o direito sobre o próprio corpo.

Se ela está dormindo, ela não quer transar. Eu tenho certeza que uma mulher não quer transar dormindo. Eu tenho certeza absoluta porque eu sou mulher.

Então nos próximos vídeos a gente vai falar um pouco de juridiquês sobre estupro, e também poder sair do juridiquês porque nem toda lei é justa. A lei é a lei dos homens. Dos homens, homens mesmo. Estou usando homens aqui como sexo. A lei é a lei dos homens. Historicamente as leis foram construídas por homens. E agora estamos em um momento histórico em que homens estão legislando cada vez mais sobre o que eles não deveriam dar palpite. Depois vamos falar um pouco sobre técnicas feministas de acolhimento e de evitar e de defesa e como que os homens podem ajudar também. Já que vocês gostam tanto desta frase “mas nem todo homem” ver como pode fazer a diferença e realmente merecer o “nem todo homem”.

6 Comentários

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Andressa

24/11/2017 - 12h39

Adorei e vou acompanhar. Ir a uma delegacia da mulher é no mínimo constrangedor,nao tenho propriedade para falar sobre estupro,porém posso falar sobre agressão fisica,verbal, emocional,financeira entre outras, e ir a delegacia só faz vc se sentir pior,pois num lugar onde vc espera no mínimo ser acolhida, vc é julgada, vc é questionada. Fui até mesmo questionada se eu tinha certeza q ia fazer B.O pq com isso eu ia “fuder” com a vida dele q é PM, sim eu escutei isso dentro de uma delegacia, enfim mesmo sendo feito B.O e etc, deu no que mesmo??? Em nada. Infelizmente o fim das mulheres é o q vemos quando ligamos a tv nesse programas sensacionalista,mas é a vdd nua e crua. O q eu tenho é medo, medo por ser mulher.

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Shirlei Marques

24/11/2017 - 09h07

Oi, Ana, ontem falei, bem, sobre você. Sim, eu estava saudosa.
Oi, Fernando, um abraço.

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alvaro

23/11/2017 - 23h10

Dá-lhe Ana! Seja muito bem vinda.

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Fernanda Nasser

23/11/2017 - 20h50

Ana Roxo construindo o estupro que é desconstruído diariamente pelos homens

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AFONSO H V GUEDES

23/11/2017 - 19h31

Falta falar da antropologia do estupro. Antecede todos os comentários feitos.

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    Ana Roxo

    23/11/2017 - 21h17

    começou os homens me dando lição :/

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