Nocaute e Momo – I

O carnaval de rua, emparedado entre o poder público e os patrocinadores. O historiador, professor e escritor Luis Antonio Simas fala sobre as mudanças no carnaval de rua diante das pressões do mercado. Imagens e entrevista: José Eduardo Pachá.

Entrevista Luis Antonio Simas – bloco 1 

 

Os blocos de rua do Rio de Janeiro estão vivendo uma situação bastante peculiar. Porque o carnaval de rua se caracterizou pela espontaneidade, pela capacidade de normatizações disciplinares maiores. Acontece que o carnaval de rua do Rio de Janeiro cresceu muito e esse crescimento inclusive chamou a atenção de algumas marcas que perceberam que esse carnaval podia gerar um retorno midiático até do ponto de vista da propaganda bem interessante, como por exemplo cervejarias. Então, o que acontece é que os grandes blocos aqui do Rio de Janeiro, aqueles que cresceram mais, estão hoje numa situação complicada. Porque de um lado você tem o poder público que tenta disciplinar a rua e normatizar minimamente o carnaval da cidade, estabelecendo regras disciplinares para o carnaval de rua que a rigor tinha um grau de espontaneidade muito grande. O outro fato é que essas grandes empresas começaram a patrocinar esse carnaval de rua. Começaram a patrocinar esses blocos maiores.

 

Se no início isso era interessante porque gerava um dinheiro capaz de fazer o bloco se preparar pra sair, alugar o som, agora nós estamos numa situação que alguns desses blocos foram capturados por essa lógica comercial que tomou conta do carnaval de rua. Me parece então que o carnaval de rua do Rio de Janeiro hoje, sobretudo na zona mais turística que abrange a as praias e abrange o centro da cidade, se vê diante de uma normatização que aparentemente é incompatível com a própria ideia de carnaval de rua. Ao mesmo tempo surgem blocos que tentam fugir desse esquema. Tentam fugir dessa cooptação pela lógica do mercado. Então, o que me parece que acontece com o carnaval de rua do Rio de Janeiro, que é um carnaval que o Rio já está exportando para alguns lugares, como São Paulo, é que ele é um carnaval que hoje está espremido perigosamente entre duas lógicas normatizadoras.

 

A lógica normatizadora do poder público, que estabelece critérios, traçam normas disciplinares a respeito desse carnaval. E há uma lógica fundamentada na ideia do carnaval como elemento gerador do consumo. Aquela lógica do bloco que acaba fazendo um acordo, que recebe um determinado patrocínio. E isso a rigor prende o bloco, portanto, dentro daquela lógica normativa. Só uma determinada cerveja pode ser vendida no bloco. Só aquela marca pode fazer propagando no bloco. Blocos, então, não conseguem negociar com outras marcas. Portanto, me parece que a encruzilhada do carnaval de rua do Rio de Janeiro hoje, é a encruzilhada entre o poder público, o poder instituído com seus mecanismos de normatizar o carnaval de rua e a lógica do consumo, a lógica do marketing, a lógica da propaganda que vê esse carnaval de rua prioritariamente como um elemento que gera circulação de capitais.

 

Aí você tem as frestas, ao mesmo tempo que ele impõe a lógica normatizadora agora, nesse atual momento, as frestas estão aí. Então, você tem brechas onde aqueles que tentam resistir a essa lógica normativa do mercado e do Estado, estabelecem alguma coisa que seja vinculada a tradição da espontaneidade do carnaval de rua. E aí você tem um bloco de sujos. Blocos que, por exemplo, tentam se recusar a lógica normatizadora do Estado e não pedem alvará pra poder desfilar e mesmo assim eles acabam desfilando. Ou blocos hoje que se recusam terminantemente a aceitar a cooptação pela marca de cerveja que tenta controlar a lógica do carnaval carioca. Então, me parece que o que é interessante nesse carnaval de rua nesse sentido é que ele trabalha com uma tensão entre a lógica da normatização e uma espontaneidade que é característica do carnaval de rua.

 

Ao mesmo tempo que ele está sendo normatizado, criam-se também mecanismos, o próprio carnaval acaba retroalimentando alguns mecanismos de defesa contra essa lógica normativa. Estão nos blocos que fogem, por exemplo, do circuito turístico. Nos blocos, por exemplo, que não se submetem a essa lógica da prefeitura ou das grandes cervejarias. Eu acho que essa tensão que marca o carnaval do Rio e vai continuar marcando.

 

Na tradição do carnaval, as marchinhas sempre funcionaram como crônicas de costume. Então, elas retratam a época em que elas foram produzidas. Retratam costumes, retratam a política. Essa polêmica que envolve marchinhas demonstra uma coisa que eu gosto sempre de ressaltar: o carnaval não é uma festa da alienação e do esquecimento. Pelo contrário, muitas vezes o carnaval potencializa uma série de tensões sociais que estão nosso cotidiano. Elas são, evidentemente, carnavalizadas, você tem um tratamento satírico a esse tipo de coisa. Agora, é uma festa que guarda esse caráter político que não se manifesta formalmente, mas que se manifesta nas tensões, contradições das ruas e avenidas e por aí vai.

 

Então as marchinhas potencializam as contradições, as tensões sociais de uma maneira satírica. E é claro que algumas marchinhas são datadas. O Brasil estruturalmente naturaliza o racismo ao longo de sua história. Então é claro que quando você pega “o teu cabelo não nega”, a frase “como a cor não pega”, é uma frase que naturaliza o preconceito racial, naturaliza o racismo. Agora, o que me parece é o seguinte: carnaval não é época de proibição e nem é época de cobrar algum tipo de compromisso. Ninguém pode cobrar que um bloco toque determinada marcha, se não quer tocar, não toca. E ao mesmo tempo ninguém pode proibir. Acho muito natural, por exemplo, um bloco de mulheres como é o caso do Mulheres Rodadas aqui do Rio de Janeiro que prefira não tocar marchinhas que passe uma visão misógina sobre a condição da mulher. Isso faz parte do carnaval.

 

Entrevista Luis Antonio Simas – bloco 2

 

Eu acho que escola de samba é um organismo vivo. E como organismo vivo, a escola de samba tem fases. Em algumas circunstâncias as coisas estão indo de uma maneira, em outras circunstâncias estão indo de outras maneiras. O sambódromo, quando foi criado, ele aprofundou uma tendência das escolas de samba que já vinha se desenhando, que é uma tendência que eu particularmente acho que tem que ser vista com um certo senso crítico. Porque foi uma tendência que exacerbou muito a valorização dos quesitos visuais em detrimento de quesitos de fundamento, como é o caso do samba enredo, como é o caso da bateria. Esses quesitos visuais, eles têm uma ligação também com um fato: o sambódromo é uma pista de desfile, é uma avenida, que verticalizou muito o desfile. Então você tem arquibancadas que o último degrau, ele fica lá em cima. Essa tendência de você ter arquibancadas que sobem faz com que o desfile em larga medida também suba. Porque na década de 1960 você por exemplo via as escolas de samba na altura do chão. Era a corda, você estava ali na calçada, você via a escola na altura do chão.

 

Na medida em que você começa a ter mudanças e arquibancadas são construídas, antes mesmo do sambódromo – o que o sambódromo fez foi fixá-las, elas não eram fixas, você montava e desmontava. Mas isso gerou uma verticalização do desfile. Então o desfile sobe. Você começa dar ênfase maior ao carro alegórico do que ao componente que está no chão. Isso é uma questão que me parece problemática. O samba-enredo, ele sentiu muito o efeito, a meu ver, de uma depauperação dos enredos das escolas de samba. Sobretudo – não digo que seja o sambódromo não, porque a década de 1980 tem pelo menos duas safras que eu acho muito boas de samba-enredo. A safra de 1983 me parece muito boa, a safra de 1988 me parece muito boa. Mas sobretudo a partir de meados dos anos 1990, a gente entra na fase dos famosos enredos patrocinados.

 

Esses enredos patrocinados são patrocinados por cidades, são patrocinados por empresas. A qualidade dos enredos caiu muito. E a qualidade dos enredos caindo, ela derruba também a qualidade do samba. Até porque o samba-enredo se coloca a serviço do enredo que ele está descrevendo. Se você considerar que isso pode ser somado a uma aceleração das baterias, que a gente verificou em meados dos anos 1990, início dos anos 2000, você tem um momento muito difícil do samba-enredo. Curiosamente, hoje eu vejo o samba-enredo ensaiando uma reação.

 

A safra de sambas-enredos de 2017 é uma boa safra. Há muito tempo a gente não tinha uma safra com tantos sambas de qualidade. Eu acho que isso pode ter a ver com a melhoria da qualidade do enredo. Só pra fazer uma provocação: acho que essa melhoria de qualidade tem a ver muito com a crise, sobretudo a crise econômica dos últimos anos, que faz com que a abundância de enredos patrocinados diminua. Então sem o enredo patrocinado, sem ter que falar de marca, de iogurte, de companhia aérea, das coisas mais esdrúxulas, você acaba indo pra enredos mais autorais. E esses enredos mais autorais proporcionam samba de melhor qualidade. É isso que a gente está verificando. Então me parece que a depauperação do samba-enredo num certo momento está muito ligada à queda de qualidade dos enredos.

 

Cada escola tem sua peculiaridade. Se você pega, por exemplo, a Mangueira, o Morro da Mangueira fica perto do centro do Rio. Ele não é longe do centro, ele fica ali entre o Maracanã, Benfica e São Cristóvão, que a rigor está perto do centro. Você pega por exemplo o Morro do Salgueiro, ele é um morro que está encravado num bairro de classe média do Rio que é o bairro da Tijuca. Você pega por exemplo o Estácio, o Estácio está muito próximo da zona central. Você tem essas escolas que são caracteristicamente escolas de morro. Mangueira, Morro da Mangueira; Salgueiro, Morro do Salgueiro; Estácio, Morro de São Carlos; Unidos da Tijuca, o Morro do Morel; o Império da Tijuca, o Morro da Formiga; você tem isso.

Ao mesmo tempo você tem escolas que eu chamo de escola de planície.

 

A Portela por exemplo é uma escola tradicional, que não pertence a um morro. A Portela é de uma região do subúrbio, Osvaldo Cruz, e quando ela foi criada era muito distante do centro. Isso repercute até na maneira como essas escolas lidam com o estilo de samba que elas fazem. O samba portelense, o samba de terreiro da Portela por exemplo, ele é um samba que tem uma batida que flerta muito com o tipo de samba que vem, por exemplo, do Vale do Paraíba. Flerta muito com o tipo de samba que é influenciado por uma dolência dos ranchos que eram muito famosos em Quintino Bocaiúva, bairro suburbano que é relativamente perto de Osvaldo Cruz. Ao mesmo tempo, a Mangueira tem uma característica de batida de surdo um, que é uma característica mais firme, a resposta da Mangueira não é aquela clássica. Ao mesmo tempo você tem o Salgueiro que tem uma batida é muito parecida com a batida do partido alto, sobretudo a batida de caixa do Salgueiro. Você tem uma Mocidade Independente de Padre Miguel que tem uma base de batida de caixa que é muito vinculada a um toque do candomblé, que é o Agueré de Oxóssi. Então o que é interessante é que aparentemente, pra quem está de fora, todas as escolas de samba se situam no campo mais ou menos comum do ritmo. Mas não, você tem essas peculiaridades. Elas até num certo momento foram se perdendo um pouquinho, mas hoje me parece que há uma consciência de que essas características, essas peculiaridades, elas são importantes para que você mantenha. É claro que essas batidas, esses ritmos, estão muito vinculados às comunidades de onde essas escolas surgiram.

 

 

Um comentário

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Mirtes

26/02/2017 - 10h53

Quais são as normas disciplinadoras mais inquietantes? Se o bloco se valorizar, e isto é fundamental para o sucesso do carnaval de rua, ele aceita o patrocínio que quiser, que estiver de acordo com seu espírito carnavalesco, pois não é o patrocínio quem rege este espírito. É ao contrário. Todos os que tentam corromper o espírito do bloco são também corrompidos por ele, pois as leis de rua prevalecem no final. Quando há auto valorização não há corrupção, aí a alegria, a alma do carnaval, importa mais do que o mercado. O mercado corrompe o costume. Marchinhas são datadas sim, e toca quem quer. Isto é um grande reconhecimento ao carnaval de época e aos saudosos da folia momesca de antigamente e que se renova, isto é bom que se diga. Ninguém esquece uma marchinha tão facilmente para obedecer a um comando estrutural local. O importante é localizar as marchinhas atuais e garantir que, essas sim, não violem o código de conduta moderno. Quantos são os bondes que desafiam o racismo? Quantas são as escolas de samba que se mantiveram mais autênticas?

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