Zé Celso: Sofremos diariamente golpes totalmente inesperados!

No dia 23 de outubro o CONDEPHAAT autorizou a construção de duas torres do Grupo Silvio Santos no terreno ao lado do Teatro Oficina. Em entrevista exclusiva ao Nocaute, o diretor e dramaturgo Zé Celso Martinez Correa fala sobre a decisão e a conjuntura política no Brasil pós-golpe.

Por 15 votos a 7, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) aprovou a construção de dois edifícios, por parte do Grupo Silvio Santos, no terreno ao lado do Teatro Oficina. O espaço, tombado pelo órgão desde 1982, foi projetado pela arquiteta brasileira, Lina Bo Bardi. Para as torres serem construídas, ainda é preciso a autorização de outros órgãos competentes, como o Conpresp e IPHAN.

O impeachment foi uma mãe que pariu diariamente golpes totalmente inesperados, coisas malucas.

Esse assassinato cultural que aconteceu no dia 23 de outubro no órgão de defesa do patrimônio cultural, não só da cidade, do mundo. É patrimônio é do mundo. O Brasil tem que perder essa ideia nacionalista. Existe os colonizadores e os colonizados. Existem os que se libertam da colonização, jogam fora e passam a ver do ponto de vista aqui do trópico. Ou então, o que chamam sul, que foram aqueles países todos que foram colonizados e agora veem de fora as coisas, se descolonizam. O Brasil votou a se colonizar inteiramente.

Imagina se é possível funcionar esse lugar sagrado. Com esse lugar que vai ser totalmente estuprado, porque é um coisa burra que vem mesmo. É uma coisa assim que é dinheiro. Aqui em vez da cruz, também não sou da cruz, é o cifrão que está na pessoa. É a pessoa cifrão. São seres cifrões, que só pensam nisso. Grupo SS, mas agora eu ponho $$.

Então, eles vem e dizem: que escândalo esse terreno todo que ficou aí. Há 37 anos nós temos uma luta maravilhosa de muitos artistas, de muita gente boa, de até muitas instituições. Conseguimos tombar em todas as instâncias. Foi desapropriado o Teatro para não ir para o Grupo Silvio Santos, no tempo que o PSDB era de centro-esquerda, pelo Montoro. E tudo escrito lá, para nos proteger da especulação imobiliária.

O Silvio Santos quis comprar aqui. Mas aí houve um movimento de opinião pública enorme e aí ele voltou atrás. Houve um show maravilhoso, vieram artistas do Rio de Janeiro, Emilinha Borba, Marlene, Caetano, Gil, até a Regina Duarte estava lá, artistas de todos os lugares. O Paulo Francis escreveu dois artigo maravilhosos, acabando com essa coisa de baú da felicidade, essa cultura que é a cultura do mercado, a religião do mercado.

Agora essa cultura que é uma cultura agressiva, destrutiva. Que não enxerga nada que não seja dinheiro. Não tem a menor ideia do que está fazendo.

O projeto que eles têm para o Teatro é péssimo. Por exemplo, esse lugar, 37 anos a Lina abriu esse janelão, a Lina Bardi, essa foi a última obra dela, remetendo à primeira casa que ficava lá no Morumbi. A casa de vidro dando para os quatro cantos do universo com uma floresta imensa. Eu vi aquilo em criança e fiquei apaixonado por aquilo. Aqui ela rasgou essa janela e ela plantou essa árvore que furou o muro e fez uma sombra no terreno.

Nós tivemos uma luta grandiosa durante 37 anos com o Grupo Silvio Santos. Eu aprendi muito com ele, você contracenar com o maior representante do capital vídeo-financeiro, realmente com o camelô do capitalismo é uma maravilha. E nós tivemos momento que ele até quando foi tombado o teatro na gestão Lula ainda, foi tombado pelo IPHAN, já tinha sido tombado antes e todos para proteger a cobiça financeira do Grupo.

Um órgão que tem que defender o patrimônio histórico. Nós temos uma história de quase sessenta anos contando os tempos amadores, uma história artística. Nós produzimos uma arte refinadíssima. Os Sertões foi considerado ano passado a melhor encenação do século 20 pela revista Bravo!. Os Sertões correu o mundo, fomos duas vezes para Alemanha. Bacantes também correu o mundo.

Esse Teatro foi considerado em 2015 pelo crítico de arquitetura do The Guardian, este Teatro entre os dez melhores do mundo, é o melhor e o mais intenso. É uma obra-prima da Lina Bo Bardi. Todas as obras dela são sagradas.

Porque existe uma coisa que essas pessoas não têm noção nenhuma. São burros, não têm noção nenhuma de subjetividade não têm noção também do sagrado. Existem coisas que são sagradas, a terra é sagrada, é um ser vivo como nós. Ela é estuprada pela propriedade privada absoluta, claro que pode ter propriedade, mas propriedade privativa com “ismo” capitalismo, fascismo, nazismo, tudo agora no mesmo tempo.

E golpe todo dia. Eu fui golpeado. Quer dizer, o Teatro Oficina foi golpeado, mas pessoalmente eu me senti golpeado. E para rebater essa facada a gente cantou, a gente cantou muito o tempo todo.

Quero o perfume das flores

Ação, luz e cores

Nessa festa colossal

Eu sou o teatro brasileiro

Da vida o espelho verdadeiro

Sambando neste carnaval

Com a minha arte que é imortal

2 Comentários

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NOCAUTE: SILVIO SANTIS RECUSA DIALOGAR COM ZÉ CELSO SOBRE TEATRO OFICINA |

13/11/2017 - 02h05

[…] CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), reverteu a decisão que vetava a construção do empreendimento imobiliário projetado pelo Grupo Si…. O espaço era tombado pelo órgão desde 1982. Para as torres serem construídas, ainda é preciso […]

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Gian Paolo

30/10/2017 - 21h56

A boçalidade de Sil San é histórica. Inqualificáveis suas falas no encontro com Zé Celso. Sil San é um indigente cultural. Tanto dinheiro não lhe deu dignidade intelectual

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