A turma do algoritmo denuncia o monstro que criou nas redes sociais

Estes ciclos - ou o que mais genericamente entendemos aqui como algoritmos - produziram um mundo "sem discursos civis, sem cooperação, com desinformação, com falsidade”, que está "corroendo as bases fundamentais de como as pessoas se comportam consigo mesmas e com as outras”.

 

As redes sociais, em particular o Facebook, estão sob um ciber-ataque arrasador.

O fogo não parte de hackers pé-de-chinelo, interessados em bagunçar muito ou faturar algum, mas de gente da casa, gente que trabalhou na criação e na gestão das redes sociais.

E o dano não está em páginas corrompidas ou mensagens indesejáveis postadas pelos atacantes, mas na conclusão alarmante a que eles chegaram e agora divulgam.

Eles estão certos de que criaram um monstro.

Sean Parker, o primeiro presidente do Facebook, disse numa entrevista que o sucesso da rede se deve à manipulação psicológica.

Como o Facebook e as demais plataformas sociais procuram atrair o máximo possível do tempo e da atenção das pessoas, elas fornecem um tipo de dopamina, o neurotransmissor que atua no controle dos movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição e memória, e tem um efeito gratificante.

Quando alguém curte um post ou dá like numa foto, é recompensando com mais conteúdos similares aos que apreciou. E isso levará a mais curtidas e mais comentários.

“É um loop de resposta de validação social”, explica Parker. “O tipo de solução que hackers como eu usamos, pois você está explorando uma vulnerabilidade psicológica humana.”

Já o cingalês Chamath Palihapitiya, que foi vice-presidente de crescimento de usuários no Facebook, disse num fórum de negócios que “os ciclos de retroalimentação de curto prazo impulsionados pela dopamina que criamos estão destruindo o funcionamento da sociedade”.

Estes ciclos – ou o que mais genericamente entendemos aqui como algoritmos – produziram um mundo “sem discursos civis, sem cooperação, com desinformação, com falsidade”, que está “corroendo as bases fundamentais de como as pessoas se comportam consigo mesmas e com as outras”.

É a mesma avaliação de Parker, segundo o qual o Facebook muda a relação que temos com a sociedade, interfere na produtividade e “sabe-se lá o que isso causa no cérebro das nossas crianças”.

A infantilização e o controle mental nas redes sociais ficam evidentes quando pensados à luz deste triste Brasil do pós-2013.

As manifestações pelo passe livre nos ônibus não teriam se convertido nas micaretas amarelistas contra tudo e contra todos sem as redes sociais.

Uma presidente da República não teria sido deposta com um pretexto que raríssimos sabem explicar, as tais “pedaladas fiscais”, sem as redes sociais.

Um bando de corruptos não teria tomado o poder em nome de combater a corrupção e não governaria à vontade sem as redes sociais.

Um candidato presidencial que lidera as intenções de voto não seria ameaçado por um processo fraudulento, em que entrou pré-julgado e saiu condenado sem provas, se os seus algozes não fossem ídolos nas redes sociais.

Palihapitiya confessa que sente “uma grande culpa” por participar da criação do monstro e agora usa o dinheiro que ganhou para financiar projetos de educação e saúde.

Movido pela mesma culpa, Parker também se converteu em filantropo de uma instituição de combate ao câncer.

Bom para eles e os beneficiados, mas, enquanto isso, o mundo gira, as redes rodam e por aqui rumamos para numa eleição que tem tudo para ser a mais manipulada da nossa história.

Não há desculpa nem haverá conserto para isso.

Um comentário

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Mirian Eller

17/12/2017 - 20h55

Pode parecer exagero ou até mesmo mentira ,mas eu estou sendo vítima desta abominação,meu relacionamente de 38 anos,lógico que já passava por algum desgaste natural,mas está correndo um grande risco de acabar por conta da defesa que faço de alguns atores do cenário político da esquerda ,principalmente do Lula e de sua política de progresso com inclusão social.

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