Tortura e morte: coletivo reúne mães de vítimas de violência policial

Marcia Yara Conti, do grupo Mães da Leste, teve o filho assassinado por policiais. Segundo ela, Renatinho foi espancado até a morte pela Polícia Militar.

 

O grupo Mães em Luto foi em 2015, depois que eu perdi meu filho. Aí eu entrei em várias páginas de Facebook, de mães que também tinham perdido seus filhos. E nessas páginas tinham muitas mães que tinham perdido seus filhos por violência policial. Aí nós resolvemos fazer uma página no Face só de violência policial, não íamos mais misturar com outras mortes.

E foi então que nós começamos a elaborar a página e conhecer as mães. Lá no Cedeca Sapopemba, eles nos cederam uma sala, de apoio total, psicólogo, tudo. Fomos para lá e começamos a fazer reuniões das mães. É difícil reunir as mães porque muitas estão debilitadas psicologicamente, até economicamente, muitas passam por dificuldades financeiras. E muitas têm medo, a maioria tem medo, pelos outros filhos.

Foi no começo de 2015. O Renatinho chegou em casa com o rosto inchadinho e eu perguntei, como o Renato não era de briga, era uma criança grande, se dava com todo mundo… Ele falou que tinha batido na mesa na casa de uma amiga. Eu acreditei porque o Renato não era de briga. Só que depois o irmão dele perguntou para e ele falou: “Nossa, Nenê, foi a polícia. Me pegaram fumando uma maconha, um baseado, e ele me bateu tanto, tanto, deixou meu rosto tudo inchado”. Ele falou para o irmão dele: “Foi os polícia da Força”.

Aí dois, três meses depois, meu filho é abordado, no dia 18, e foi espancado até a morte.

No dia que bateram nele, ele fala para meu filho: “Nenê, é um negão”. Então eu liguei uma coisa com a outra porque no vídeo do dia da morte do meu filho, ele grita na filmagem: “Negão, não faz isso comigo. Você me conhece”. Eu acredito que seja o mesmo.

As testemunhas, e eu já fui lá várias vezes, eles falam que meu filho estava indo numa rua comprida, até de bastante movimento, e a viatura logo em seguida passou atrás. E quando chegou nessa esquina, da tortura do meu filho, eles torturaram meu filho, e nessa abordagem eles arrastaram meu filho para uma rua que era mais erma. E ali pediram o documento do meu filho, mas o Renatinho estava só com a certidão de nascimento. Ele estava sem o RG dele, que estava rasurado, então eu falava para ele andar sempre com documento.

Eles pegaram a certidão e começaram a perguntar o nome dos pais, da mãe, do avô. E o Renato não sabia, e ele não sabia mesmo, porque ele nunca se preocupou em saber nome de avós, porque para ele eu era a mãe dele, meu marido era pai dele, meu pai era avô dele. O Renatinho foi adotado com 20 dias de nascido. Ele nunca se preocupou e por causa disso eles começaram “vagabundo”, “tá mentindo para nós”, e eram chutes, que as testemunhas falam, pontapés, e foi falado até em choque, que passavam um negócio brilhoso no corpo dele e ele pulava no chão.

Eu tenho a perícia do IML, foi constatada hemorragia em todos os órgãos do corpo. O Renatinho teve traumatismo craniano e mancha de tardieu, que é quando há sufocamento. Então o Renatinho teve sufocamento no tórax. Inclusive um rapaz falou que ele chegou no hospital com marca de bota no peito. Então essa marca de bota é o resultado dessa mancha de tardieu.

No dia que os policiais entregaram meu filho no hospital, eles alegaram que receberam um chamado e que tinha um rapaz passando mal. E eles foram para socorrer meu filho. Na verdade, quando meu marido e meu filho mais velho chegaram no hospital e foram no necrotério ver meu filho, falaram que ele estava muito machucado e tinha marcas de bota no peito. Na hora que meu filho mais velho abraçou o Renatinho naquela pedra, ele gorfou uma bola de sangue. Aí meu filho falou: pai, vamos atrás porque eu acredito que o Renatinho foi espancado. Não é verdade deles.

Aí meu marido subiu até a portaria do hospital e entregaram um papelzinho com o nome do policial e o número da viatura. A moça, que não quis se apresentar, falou: “Procurem justiça”. E deu o local que os policiais disseram ter ido socorrer meu filho.

Meu filho e meu marido foram até lá e aí começou toda a verdade. Não, o rapaz não foi socorrido, nada. Ele estava passando aqui, foi abordado, arrastaram ele até a rua mais era e aí começou a sessão de espancamento.

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