Rede social de jornalista é “ferramenta útil” para a mídia corporativa

O jornalista não tem direito algum à opinião própria, nem mesmo em seus perfis nas redes sociais. Pode apenas usá-los para servir aos interesses do jornal.

 

O episódio recente da demissão do jornalista Diego Bargas, ejetado da Folha de S.Paulo por pressão do humorista Danilo Gentili, não apenas envergonha a imprensa corporativa brasileira.

Ele expõe, da forma mais crua, a precariedade das relações de trabalho no jornalismo, onde os profissionais são gravemente constrangidos pela postura utilitária e autoritária de seus empregadores.

Bargas não foi demitido porque Gentili mobilizou a tropa de idiotas que o seguem nas redes sociais, para uma intensa campanha de “ciberbullying” contra ele e o jornal, como definiu a ombudsman da Folha.

Também não foi demitido porque teve uma atuação técnica discutível na entrevista com Gentili, como apontou quem assistiu a gravação completa do encontro.

Bargas perdeu o emprego, segundo o jornal, por “desrespeitar a orientação reiterada de evitar manifestações político-partidárias nas redes sociais”.

Essa orientação foi confirmada em comunicado distribuído à redação e desde logo apelidado, interna e externamente, de “AI-5 profissional” – um ato institucional de censura e opressão.

Diz o comunicado, em seu primeiro ítem, que “a Folha encoraja seus profissionais a manter contas em redes sociais”, porque elas “podem ser ferramentas úteis para fazer novos contatos e cultivar antigos, pesquisar pautas, tendências e personagens, agilizar apurações e promover conteúdo próprio e de colegas de jornal, expandindo o alcance do material publicado”.

O jornal ressalva, entretanto, que “nas redes sociais, a imagem pessoal tende a se misturar com a profissional” e que “parcela do público pode pôr em dúvida a isenção” do jornalista.

Dessa forma, “o jornalista fica sujeito a suspeição, assim como o veículo”, o que é inaceitável para a Folha, que teria o apartidarismo como princípio editorial.

 

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É muito clara, no catecismo profissional da Folha, é a visão que ele expressa sobre os jornalistas contratados pela casa.

O jornalista da Folha não é um trabalhador intelectual livre, nem um cidadão que possa gozar de plenos direitos de cidadania.

É um parafuso, uma arruela, uma peça na engrenagem corporativa, que só pode pensar e manifestar-se conforme a programação da máquina onde atua.

Ele não tem direito algum à opinião própria, nem mesmo em seus perfis nas redes sociais. Pode apenas usá-los como “ferramentas úteis” aos interesses do jornal.

Se for convidado a dar um palestra, participar de um debate ou de um programa no rádio ou na televisão, conceder entrevista a outro veículo, ou escrever para terceiros, ele tem de pedir autorização.

Mesmo que tudo isso ocorra fora de seu horário de trabalho e não envolva qualquer informação, menção ou alusão ao jornal, muito menos alguma crítica.

Ao se empregar na Folha, o jornalista se converte numa extensão da marca, uma encarnação dela, e para que ela seja preservada, ele deve perder a sua autonomia como intelectual e cidadão.

A bem da verdade, isso acontece na Folha, na Globo, no Estadão, na Editora Abril, em todo o jornalismo corporativo, e mesmo em setores da mídia pública.

Mas é oportuno recordar que, se não começou lá, essa apropriação indébita dos jornalistas virou rotina com o histórico Projeto Folha – a ponte para o futuro que a empresa lançou em 1984, com a pretensão de renovar a si mesma, a mídia brasileira e o jornalismo universal.

Grandes e pequenos nomes do jornalismo brasileiro, em tempos melhores do que as últimas décadas, podiam trabalhar em dois ou três veículos distintos, e falar ou escrever o que quisessem fora deles, onde e quando quisessem, sem pedir licença a ninguém.

Mas hoje os jornalistas da mídia corporativa não apenas vendem suas horas de trabalho. São parte do patrimônio. São objetos comprados pelos veículos, a maioria por salários de fome.

As liberdades de expressão e de imprensa, quem não é burro já entendeu que são direitos constitucionais do empresariado da mídia, mas nada têm a ver com o direito social à informação.

Agora é preciso entender que também os direitos individuais dos jornalistas pertencem ao oligopólio da imprensa corporativa, e que a escravidão intelectual é o regime de trabalho no meio.

Pode existir bom jornalismo onde não há liberdade? A qualidade da mídia atual é a perfeita resposta a essa questão.

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