Polícia Federal mira nas fake-news, mas esquece um suborno real

Um ambiente de pós-verdade não se faz apenas com notícias falsas, mas também com fatos verdadeiros que a mídia oculta e o poder de estado deixa nas sombras

A Polícia Federal vai montar um grupo de trabalho, em conjunto com o Tribunal Superior Eleitoral e a Procuradoria Geral da República, para reprimir as “fake news” nas eleições deste ano.

Quem informa é a Folha de S.Paulo, definindo as fake news em sentido restritíssimo, tão somente como “textos falsos disseminados como notícias verdadeiras em redes sociais e em aplicativos de mensagens”.

É significativo que a cúpula do poder judicial mire suas baterias contra o noticiário falso apenas nas próximas eleições, e que o seu alvo seja a internet.

O dispositivo político-jurídico que define os rumos do país desde o golpe de 2016 quer se perpetuar de todas as formas e o controle sobre o resultado da eleição presidencial é crucial para esse projeto.

Porque combater as fake news nas eleições, convenhamos, será apenas a repressão àquele material circulante na internet que ameace o candidato governista, seja ele qual for.

Para essa finalidade, tanto faz se o material será falso ou verdadeiro, porque sempre será possível fazer falsas imputações contra notícias legítimas – como bem demonstra o festival de investigações manipuladas e condenações “por convicção”, que assola o país da Lava-Jato.

Resumindo a ópera e fazendo o “spoiler” dela, as fake news só serão investigadas e reprimidas se atingirem o projeto governista.

Ou alguém imagina a Polícia Federal preocupada em desarmar fake news contra Lula ou algum candidato da esquerda?

Se a Polícia Federal tivesse interesse real na verdade dos fatos, talvez pudesse investigar o suborno das Organizações Globo a dirigentes esportivos, para obter os direitos de transmissão de grandes campeonatos de futebol, como faz neste momento a justiça norte-americana.

Nesta semana, Anthony Garotinho publicou em seu blog documentos dos Estados Unidos que evidenciam o suborno.

Mas, como é usual no oligopólio brasileiro de mídia, sempre autoprotetor, nada surgiu nos grandes veículos até agora. Apenas na internet. Apenas na blogosfera.

Se não saiu na mídia tradicional, não aconteceu – é o que o poder dominante acredita. Logo, não há o que repercutir nem, muito menos, investigar.

OK que Garotinho tem o valor de uma nota de três reais, mas documentação que ele apresenta parece verdadeira.

Não será investigada, de qualquer forma, a não ser para desqualificá-la, jamais para incomodar a Globo.

Um ambiente de pós-verdade não se faz apenas com notícias falsas, mas também com fatos verdadeiros que a mídia oculta e o poder de estado deixa nas sombras.

Uma eleição segura para a continuidade do golpe de 2016 depende das duas coisas: fake news convenientes e muita pós-verdade.

2 Comentários

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Regina Maria de Souza

06/01/2018 - 12h28

Me lembra uma antiga marchinha: “Este jogo não pode ser 1 a 1/ Se meu time perder eu mato um.”

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Antonio Mello

05/01/2018 - 17h49

Aqui você pode conferir o depoimento de Alejandro Burzaco à Justiça dos EUA na íntegra: http://blogdomello.blogspot.com/2018/01/leia-integra-do-depoimento-de-alejandro-burzaco-que-envolve-globo-corrupcao.html

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