Cláudio Guedes mergulha nas entranhas de João Doria

Na Bahia se diz: quanto maior o coqueiro, maior a queda.

O início da queda

Por Cláudio Guedes

Uma carreira política fulgurante, impressionante. Sem nunca ter tido participação política relevante, João Doria Jr. conquistou, em 2016, a prefeitura de São Paulo, a maior cidade do país e uma das mais importantes do mundo, sendo eleito no primeiro turno! A conquista lhe subiu à cabeça. Lançou-se prematuramente candidato à presidência da República à revelia dos dirigentes do seu partido, o PSDB. Parecia que atropelaria Alckmin, Aécio, Serra e qualquer um que estivesse à sua frente. Parecia …

Mas quem é, realmente, o personagem? Quem é João Doria Jr.? O que o futuro lhe reserva? Em 13 passos.

1. Conheço bem a história. Desde, podemos dizer, os seus primórdios. Ele é filho do publicitário baiano, depois radicado em SP, João Agripino da Costa Doria, primo-irmão da minha mãe. Estes, por sua vez, são netos do médico baiano de mesmo nome, que foi vereador, presidente da Câmara Municipal e prefeito interino da cidade de Salvador, no final do século XIX. Morreu jovem, aos 48 anos, como decorrência de um acidente quando andava à cavalo.

2. João Doria, pai, além de publicitário de sucesso, foi também, por breve período, político. Em 1962 disputou a eleição para deputado federal pelo PDC (Partido Democrata Cristão) na Bahia. Era empresário em SP, disputou a eleição na Bahia apenas por facilidade de legenda e por ser baiano de nascimento. Conquistou uma suplência e assumiu, em 1963, uma cadeira. Foi, portanto, colega de bancada de Franco Montoro, eleito pelo PDC paulista, e que viria a ser senador e governador do Estado nos anos 70/80. E este aparente detalhe foi fundamental para a vida futura de João Doria Jr.

3. Por que a carreira de João Doria, pai, foi breve? Porque em 1964, com o golpe militar, ele foi cassado e teve os seus direitos políticos suspensos. Como não era da esquerda tradicional, os motivos da sua cassação nunca ficaram muito claros. Ele fez campanha eleitoral, em 1962, com forte apoio de entidades civis e empresariais ligadas aos americanos, que buscavam influir na vida política nacional patrocinando políticos que fossem uma alternativa à esquerda. Este apoio, não permitido pela legislação eleitoral, foi tão expressivo que, na Bahia, ele ficou conhecido como João Dólar (!). Assumindo o mandato, inteligente como era, se aproximou da Frente Parlamentar Nacionalista, para limpar um pouco a sua imagem. Os militares que assumiram o poder devem ter ficado intrigados com a mistura dólares & nacionalismo tardio e não o perdoaram. Cassado foi viver no exterior.

4. Com a anistia e a redemocratização, quase vinte anos depois, Franco Montoro foi eleito governador de SP. João Doria, pai, já de volta ao país, vivia na capital do Estado, dirigia o Instituto Mind Power (promovia algo como cursos de auto-ajuda para ricos e famosos). Assumindo o governo e tendo nomeado Mário Covas para a Prefeitura de SP, em 1983, Montoro recebeu, do velho companheiro de bancada, o pedido de colocação para seu filho no governo municipal. Convence Covas a atendê-lo, e este nomeou o jovem João Doria Jr. para a Secretaria de Turismo e a presidência da Paulistur (1983/1986). Com a posse de José Sarney na presidência, após a morte de Tancredo Neves, Franco Montoro pediu a este a presidência da Embratur e lá colocou o seu protegido (1986/1988). Estes cinco anos lidando com turismo, eventos e feiras empresariais em SP e no Brasil, abriram as portas do grande mundo empresarial ao jovem publicitário, que soube se aproveitar do “empurrão”. E como soube.

5. Algum tempo após deixar o governo, João Doria Jr. montou uma entidade privada, controlada por ele, a LIDE – Liderança Empresarial, seu carro-chefe, que é uma espécie de associação de empresas privadas com dono (estranho? – pois é), e uma dezena ou mais de empresas voltadas a negócios com parceiros privados influentes, além de uma carreira bem sucedida na TV, com programas onde negócios, lobbies & informação se misturam e se confundem.

6. Vitorioso no seu esquema empresarial “sui generis”, João Doria Jr. resolveu voltar-se para a política partidária. Filiado ao PSDB, mas nunca levado a sério pelos cardeais do partido – FHC, Serra, Goldman e Aloysio Nunes – ele se aproximou de Geraldo Alckmin, a estrela solitária e poderosa do tucanato paulista, que possui esquema próprio e trava luta intestina contra o grupo dos “quatro” pelo controle da máquina partidária.

7. Alckmin, que precisava de um nome independente para apoiar na eleição à Prefeitura de São Paulo em 2016, se acertou com Doria e lhe prometeu apoio nas prévias do partido. Montaram um esquema profissional competente e atropelaram o candidato do grupo dos “quatro”, o também empresário Andréa Matarazzo – este, na verdade, empresário apenas no pomposo nome, pois nunca teve qualquer sucesso como empreendedor.

8. Candidato tucano a prefeito, João Doria Jr. chegou à disputa na hora certa, no lugar certo. O momento era dos camaleões, dos hipócritas, dos ilusionistas na política. Muito bem produzido, abandonou os “cashmere sweaters” por uma camisa sóbria e elegante, apresentou-se com a face limpa produzida com requinte (nenhum fio de cabelo fora do lugar), apareceu dialogando com populares e beijando mulheres pobres de meia idade da periferia. Nada de Caviar estilo, nada de Oscar, as revistas do Grupo Doria que retratam o mercado de luxo no país. Sobriedade. Nada de ostentação, na campanha ele era o João Trabalhador.

10. Eleito em primeiro turno, de forma consagradora, derrotando o ótimo prefeito Fernando Haddad (vítima das circunstâncias, do linchamento midiático do PT, este sequer teve a chance de ver o seu mandato avaliado), assumiu criando grandes expectativas, como um fenômeno novo (sic) na política brasileira.

11. Mas o que poderia ser o início de uma bem sucedida carreira sofreu os efeitos da vaidade exarcebada, da soberba, e o João Trabalhador (sic) recebeu a picada, quase sempre fatal, da mosca azul. E, nesse momento, passou a cometer erros em sequência, sendo que três deles podem contribuir decisivamente para abreviar a carreira pública:

a) sem consultar os dirigentes partidários, os “velhos” fundadores do PSDB, atropelou os ritos usuais da política partidária e se lançou, em movimento solo, pré-candidato à presidência da República. Desdenhando do seu padrinho-mor, o governador Geraldo Alckmin, sem o qual não teria conquistado a vitória em São Paulo. Na política, em geral, “cuspir no prato que comeu” é considerado crime grave. Raramente sobrevivem os que adotam esse comportamento;

b) abandonou a cidade de São Paulo à própria sorte, esqueceu suas promessas de campanha, escorando-se numa publicidade agressiva e começou um périplo apressurado pelo país e pelo mundo visando projetar uma imagem de estadista. Imagem farsesca, construída artificialmente, que passou a ser contestada por diversos segmentos da imprensa e do meio político;

c) imerso na fogueira das vaidades, não percebeu a reação contra os seus planos tramada no interior do próprio PSDB, por Alckmin e seus ex-adversários – que tantas vezes se enfrentaram e tantas vezes se reconciliaram – e, criticado de forma dura, mas sóbria, pelo vice-presidente nacional do PSDB, o ex-governador Alberto Goldman, partiu para a briga e, sem refletir, ofendeu o líder tucano de forma vulgar e grosseira.

12. Hoje, 8/10, o DataFolha publica pesquisa em São Paulo, que mostra uma queda de quase dez pontos percentuais na aprovação de sua administração na capital paulista, com menos de um terço de bom/ótimo. Na pesquisa, cerca de 55% rejeitam sua candidatura à presidência, 75% acham sua gestão decepcionante e a maioria critica sua estratégia de viagens intensas.

13. Pode ser que o esperto prefeito consiga reverter o quadro de desgaste crescente. Pode ser. Mas a maior probabilidade é que a sua queda seja espetacular. Tão espetacular quanto foi a sua ascensão.

2 Comentários

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Clóvis Brasileiro Franco

09/10/2017 - 21h17

Acho cedo pra dizer que Doria cai
Não sai do noticiário, sabe jogar sujo, é joga, a direita não tem, ainda,outro nome além do Bolsonaro, tá todo mundo ajudando ele, mesmo quando critica, se ele virar solução pra direita, muda tudo.

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Fabio Cezar Montibello

09/10/2017 - 02h12

O joão dória júnior não ganhou a eleição em São Paulo “de forma consagradora”, a abstinência, o voto em branco e nulo foram extremamente significativos, mostrando que a eleição, em si, não agradou ao paulistano…

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