Novo Conselho de Comunicação Social é o clube patronal de sempre

O Conselho de Comunicação Social jamais atendeu à expectativa de que atue de forma equilibrada, zelando pelos interesses dos três lados da relação comunicativa: os empresários, os trabalhadores e o público. Configurou-se como um clube patronal, um Instituto Millenium em prédio público, que jamais imporá medidas de contenção às empresas.

Tomaram posse outro dia em Brasília, enquanto o país debatia o humor racista de William Waack, os novos membros do Conselho de Comunicação Social do Congresso.

A Agência Câmara informou que o combate às “fake news”, entendidas por ela como as notícias falsas que são disseminadas pelas redes sociais, foi o tema dominante na cerimônia de posse.

Muito se falou sobre a assombração do momento, palpitante no peito dos conservadores.

Peroraram sobre “fake news”, durante o ato ou em mensagens aos novos conselheiros, grandes próceres da democracia brasileira, como Eunício de Oliveira, Rodrigo Maia e Gilmar Mendes.

A liturgia foi seguida com grande compenetração, mas tudo é falso nessa missa.

As notícias, o entendimento da Agência Câmara, as preocupações dos luminares, e o próprio Conselho.

Porque “fake news” estão longe de ser uma moléstia exclusiva das redes sociais, porque os políticos sabem disso mas alguns fingem que não, e porque o novo CCS não vai enfrentar o problema como deveria.

Simplesmente porque é impossível a um conselho composto de forma irregular, manipulado para assegurar nele a hegemonia da mídia corporativa, combater a sério um fenômeno que se origina também, e muito intensamente, nessa própria mídia.

Às vésperas da posse, a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular soltou uma nota pública, repudiando a nova composição do CCS.

Lembrou que, por lei, as 13 vagas do organismo devem ser compostas de forma tripartite, com representantes do setor patronal, das categorias profissionais da comunicação e da sociedade.

Mas acusou que as vagas da sociedade foram ocupadas por mais representantes patronais: um diretor da Claro, um dirigente estadual da TV aberta, um dirigente nacional da TV por assinatura, e um membro de instituto empresarial.

Esta peculiar representação da sociedade brasileira, somada à representação diretamente patronal, assegura 2/3 dos votos ao “mercado” em qualquer votação no CCS.

Não é a primeira vez que a composição do conselho é manipulada, em favor da mídia de mercado.

Já em 2005, no segundo mandato do órgão, quando eu fui membro suplente dele, o empresariado sentava em cadeira que não era destinada a ele.

O Conselho de Comunicação Social jamais atendeu à expectativa de que atue de forma equilibrada, zelando pelos interesses dos três lados da relação comunicativa: os empresários, os trabalhadores e o público.

Configurou-se como um clube patronal, um Instituto Millenium em prédio público, que jamais imporá medidas de contenção às empresas.

Já na primeira declaração, o novo presidente do CCS tranquilizou os sócios do clube, rechaçando o temível e fantasmático “controle da mídia” e jurando devoção à liberdade de imprensa – essa aí, restrita e falsa, liberdade de uns, tormento de todos os outros.

Nisto, sim, não há nenhuma notícia falsa. Um novo CCS está composto, para garantir que a mídia siga a salvo de qualquer reforma, ou de obrigações que não deseja assumir.

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