Marcia Tiburi: Lula, eu já te odiei tanto. E agora eu te amo tanto.

Eu só aprendi a gostar do Lula e entender o que ele estava falando, quando percebi que ele era uma figura que trazia com tranquilidade o seu legado de classe para o processo político.

Vou aproveitar esse pequeno tempo para me pronunciar em dois sentidos. Primeiro fazendo uma declaração e depois fazendo um pedido. Eu queria dizer que estou aqui para prestar o meu apoio ao Lula na sua candidatura para presidente. Por perceber que essa candidatura representa nesse momento a esperança mais concreta, mais real e definitiva, nesse momento histórico que a gente vive, que estamos experimentando uma profunda dor política em relação ao golpe.

A minha declaração tem a ver com o seguinte: Lula, eu já te odiei tanto. E agora eu te amo tanto. Eu quero explicar como isso acontece, porque eu acho que isso é uma coisa interessante da gente avaliar em termos de Brasil.

Eu nasci em 1970, no interior do Rio Grande do Sul, numa cidade xucra pra caramba, chamada Vacaria. Eu estudei em uma escola de ensino público e nós nunca ficamos sabendo, por exemplo, que existia ditadura militar. A gente não recebia esse tipo de conteúdo.

Eu venho de uma família que não é nem classe operária, é abaixo da classe operária. Uma família marcada, como em todos esses lugares brasileiros abandonados por tudo e por todos, por um profundo ressentimento. Eu acho que esse ressentimento é carregado por nós. Eu trago o pampa dentro de mim, assim como o Guimarães Rosa trazia o sertão, como os cariocas, que têm mais sorte, trazem a praia.

Eu só aprendi a gostar do Lula e entender o que ele estava falando – e aprendi a gostar dele por que entendi o que ele estava fazendo e o personagem que ele é -, quando percebi que ele era uma figura que trazia com tranquilidade o seu legado de classe para o processo político.

A gente fala muito no Brasil, hoje em dia, da ideologia espontânea: a mulher que é machista, o negro que é racista, o operário que é capitalista. O sujeito que é aviltado e se entrega às ideologias que destroem a sua própria vida. A ideologia dominante que destrói a sua própria vida. E o Lula, como personagem político, é um figura que consegue produzir na população brasileira, que consegue ultrapassar essa questão da vergonha do seu legado de classe, um profundo amor contra o ressentimento.

Então, a minha identificação com o Lula de identificação hoje e de apoio a esperança que ele significa, tem a ver também com a minha capacidade de reconhecer o meu legado de classe. Eu fui filiada a um partido chamado PSOL, durante um certo tempo. Com esse partido eu aprendi que a gente precisa de um partido feminista. Me desfiliei do PSOL por não ver no PSOL essa potência. Fico namorando o PT. Quem sabe a gente consiga fazer do PT um partido bem feminista.

Eu queria colocar isso, porque esses aprendizados políticos precisam ser reconhecidos no sentido da gente se reconectar com o nosso próprio devir histórico. Como sujeitos que vivem dentro de momentos que vivem determinados afetos. Nesse ponto, para fechar a minha declaração, assim como eu aprendi a reconhecer na dor que você fala, a minha própria, eu também aprendi a reconhecer na alegria com que você se expressa, a minha própria.

Outro ponto que eu queria colocar é que nós precisamos ultrapassar esse estado pós-democrático em que os direitos básicos fundamentais têm sido aniquilados.

A questão da democracia é aquela que a gente precisa nesse momento levar muito a sério. E nesse sentido, eu queria pedir a você, Lula, nosso ex-presidente, presidente, futuro presidente, quando você se tornar presidente de novo, não esqueça da questão indígena no Brasil e da questão racial e que integre isso com força na suas políticas, que não esqueça das mulheres em momento algum. Porque as mulheres sofrem demais, as mulheres todas são trabalhadoras. A gente não pode pensar, hoje em dia, num feminismo que não seja trabalhista. Você nasce mulher e já está condenada a ser trabalhadora e pior, escravizada. Precisamos pensar também nesse lugar.

E espero também quando você for presidente de novo, que você consiga estabelecer um diálogo, coisa que você sabe fazer, com a sociedade que produza uma educação mais potente em termos de reconstrução de um projeto de país.

Acho que nós não temos como nos tornar um país do futuro se a gente não pensar na educação. Eu sou professora de filosofia há vinte e tantos anos, para mim é um ato de resistência, como eu sei que é para todos os meus colegas que são professores e acho muito importante que a gente integre isso na nossa conversa, porque só a educação como estratégia política será capaz de combater o real inimigo do processo que é o neoliberalismo que hoje em dia jogou suas patas sobre nós, de novo, numa segunda onda ditatorial como a gente vem vivendo.

Então, todo o meu apoio e todo o meu amor a você e ao povo que vai votar em você, junto comigo.

14 Comentários

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Ricardo Hellmuth

15/12/2017 - 09h43

Só esperei para ler o comentário dela sobre o fato de Lula ser perseguido por dar à população acesso a viagens de avião. Coroaria mais um brilhante exemplo de cegueira seletiva.

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Furrupa

13/12/2017 - 15h19

Márcia Tiburi, nunca te odiei…e te amo cada vez mais…
Pulando vala negra e bebendo agua de cisterna a gente intuitivamente, desenvolveu um sentimento de solidariedade que evoluiu pro socialismo como forma de humanizar a vida…
Vamos com Lula construir de novo essa consciência de classe que abraça e protege todos as pessoas…

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C.Poivre

12/12/2017 - 23h45

Por quê perseguem Lula? Porquê é assim que funciona uma ditadura (midiático-judicial, no nosso caso):

DITADURA: Governo que se utiliza da autoridade para suprimir e restringir os direitos individuais. Sistema antidemocrático em que o chefe de Estado não é escolhido por votações populares.

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attila duarte wensersky

12/12/2017 - 13h02

Um caso clínico bem tipificado. Síndrome de Estocolmo ou síndroma de Estocolomo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor.

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Tânia Franco

12/12/2017 - 07h52

Coragem é palavra feminina. Sensibilidade também. Solidariedade, justiça social, lucidez. Precisamos que mais mulheres, como Marcia Tiburi, expressem sua força e sua disposição de luta para que todos os filhos e filhas deste nosso país tenham o mesmo direito de viver com dignidade.

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Marcia Tiburi: Lula, eu já te odiei tanto. E agora eu te amo tanto. | BRASIL S.A

12/12/2017 - 06h29

[…] Fonte: Marcia Tiburi: Lula, eu já te odiei tanto. E agora eu te amo tanto. […]

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Sandra

12/12/2017 - 01h15

Vc só precisa conhecer mais as políticas implementadas por Lula e Dilma em defesa da mulher, do índio, do negro e, principalmente pela educação: Prouni, Fies, educação sem fronteiras, salário mínimo para professores, ampliação das universidades federais, cotas, etc. Leia um pouco mais dos implementos deles em todas estas áreas e vc vai mais que se apaixonar…

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Ryker

11/12/2017 - 21h31

Bolcheviques nunca esquecem.

Esse tipo de comunista é sempre o primeiro a levar um tiro na nuca quando os comunistas tomam o poder.

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Paulo José

11/12/2017 - 20h47

Agora só assinasse teu atestado de Retardo Mental 😵

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    Eliana

    12/12/2017 - 22h51

    Estimado leitor, o Sr pode ou não concordar com o texto lido, é seu direito. Porém, não posso deixar de questionar o termo utilizado “retardo mental”. O que o senhor deseja realmente expressar ao utilizar essa expressão? O que significa para o senhor ser um “retardado mental”? Parece-me uma expressão bastante forte e fora de contexto, além de altamente preconceituosa! Sugiro repenssr um pouco mais ao aplicar determinadas expressões. Sou mãe de um adolescente especial, em nenhum momento, como tempos atrás, utilizo esse termo que, para mim, soa como horroroso, altamente preconceituoso e limitador! O seu direito de utilizá-lo publicamente como bem entender, o exclui do grupo dos considerados assinantes dos atestados de “retardados mentais”?

    Darcy

    18/12/2017 - 10h58

    Não posso crer que ainda existam pessoas que defendam bandidos com amor… Pessoas que fazem bagunça de conceitos sobre política e partidos políticos por ignorância, é possivel sim. Mas pessoas com um certo grau de escolaridade e um certo nível existencial não poderiam se deixar levar em uma bagunça mental e ignorância tamanha sobre o que acontece, sem falar em governo ou política, antes de mais nada, somente ao procurar se inteirar dos assuntos, já bastaria.
    A se chegar em um ponto de ver que não existem partidos políticos, que não existe pureza nenhuma em suas siglas ou muito menos ideologias puras a vingar em um mundo onde só subterfujos sujos acontecem para beneficiar os que negociam ora com um ora com outro partido, não importa a cara deslavada dos vagabundos que estejam a frente. Tenho pena e repugnancia dessa coitada que defende um bandido que se esconde por detrás de uma sigla em uma política de merda, como a do Brasil.

Felipe

11/12/2017 - 18h12

Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente vencida a batalha contra si mesmo. Amava o Grande Irmão.

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Alexandre Guedes

11/12/2017 - 15h51

A fala da Marcia Tiburi foi emocionante, fantástica e de uma sinceridade impressionante! Somente pessoas de caráter e compromissadas com seu país, têm a coragem de se expor em público com tamanha honestidade. Marcia, você me representa!!!

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    Bianca

    11/12/2017 - 16h18

    Lindo o texto da Márcia, realmente de deixar lágrimas nos olhos. Excelente seu comentário, parabéns!

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