João Bosco: Operação da PF na UFMG é violência contra a cidadania

Compositor critica uso político da música e diz que condução coercitiva fere a ordem legal; comunidade acadêmica da UFMG também se manifestou, denunciando perseguição à instituição.

O cantor e compositor João Bosco criticou publicamente a Operação Esperança Equilibrista na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que incluiu a condução coercitiva do reitor Jaime Ramirez, entre outros professores.

João Bosco afirma que a coerção foi desnecessária porque não houve pedido prévio e desobediência e que o conjunto da ação feriu os princípios elementares do processo legal. “É uma violência à cidadania”.

Condenou e proibiu o uso político da música “Esperança equilibrista”, nome escolhido para batizar operação. “Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental”.

Leia abaixo a íntegra da nota de repúdio de João Bosco.

“Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.

Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.
Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.
João Bosco
07/12/2017”

Repúdio na academia

Também se manifestaram contra a operação reitores, ex-reitores, vices e ex-vice-reitores da universidade mineira. “A UFMG e seus dirigentes sempre se pautaram pelo respeito à lei e pelo cumprimento de decisões judiciais. Os fatos ocorridos atingem, portanto, esta grande e respeitável instituição: a Universidade Federal de Minas Gerais, um patrimônio de nosso Estado e do país”.

Leia abaixo a nota completa.

Nós, ex-reitores e ex-vice-reitores da Universidade Federal de Minas Gerais, tornamos pública nossa indignação pelos fatos ocorridos no dia 06 de dezembro, quando os atuais dirigentes da UFMG e outros membros da comunidade universitária foram levados, por medida coercitiva, à sede da Polícia Federal, para prestar depoimento em investigação que transcorre em sigilo.

Repudiamos o uso de medida coercitiva quando sequer foi feita uma intimação para depoimento, em claro descumprimento ao disposto nos artigos 201, 218 e 260 do Código de Processo Penal. Por condução coercitiva, entende-se, na interpretação do Desembargador Cândido Ribeiro, “um instrumento de restrição temporária da liberdade conferido à autoridade judicial para fazer comparecer aquele que injustificadamente desatendeu a intimação e cuja presença seja essencial para o curso da persecução penal, seja na fase do inquérito policial, seja na da ação penal.” Diante de tal definição, repudiamos inteiramente o uso da condução coercitiva e mais ainda a brutalidade e o desrespeito com que foram tratados o Reitor e a Vice-Reitora, as ex-Vice-Reitoras e outros dirigentes e servidores da UFMG, em atos totalmente ofensivos, gratuitos e desnecessários.
A UFMG e seus dirigentes sempre se pautaram pelo respeito à lei e pelo cumprimento de decisões judiciais. Os fatos ocorridos atingem, portanto, esta grande e respeitável instituição: a Universidade Federal de Minas Gerais, um patrimônio de nosso Estado e do país.

Reiteramos nossa confiança na Universidade Federal de Minas Gerais e na probidade de seus dirigentes, aos quais prestamos nossa total solidariedade e apoio.

Reitor Eduardo Osório Cisalpino – Gestão 1974-1978
Reitor José Henrique Santos – Gestão 1982-1986
Reitora Vanessa Guimarães Pinto – Gestão 1990-1994
Reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos – Gestão 1994-1998
Reitor Francisco César de Sá Barreto – Gestão 1998-2002
Reitora Ana Lúcia Almeida Gazzola – Gestão 2002-2006
Reitor Ronaldo Tadêu Pena – Gestão 2006-2010
Reitor Clélio Campolina Diniz – Gestão 2010-2014
Vice-Reitor Evando Mirra de Paula e Silva – Gestão 1990-1994
Vice-Reitor Jacyntho José Lins Brandão – Gestão 1994-1998
Vice-Reitor Marcos Borato Viana – Gestão 2002-2006

2 Comentários

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C.Poivre

08/12/2017 - 12h54

Qual será a próxima Universidade Pública a ser invadida pela polícia fascista (pf)?

Responder

Valdinei Dias Batista

07/12/2017 - 18h10

Já passou da hora de todos não apenas repudiarmos, como fez brilhantemente o brilhante João Bosco, ou simplesmente nos indignarmos com todo esse retrocesso e essa violência institucional que vem sendo praticada desde o golpe contra Dilma. É preciso que nos mobilizemos com veemência contra isso tudo.

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