Imprensa se arrepende dos pecados, mas nem pensa em confissão

"A imprensa se arrepende, mas, como é do seu feitio, não faz nenhum ato de contrição nem, muito menos, pede perdão pelos pecados. Autocrítica e pedido de desculpas, isso é só para o PT fazer".

Nos últimos tempos, a imprensa brasileira têm sido pródiga na virtude cristã do arrependimento pelos pecados cometidos. Deve ser a inspiração da Padroeira, celebrada nesses dias, ou a aproximação do nascimento de seu filho, uma época sempre propícia à meditação.

A revista mais reacionária da Universo, de repente, alerta para a “ameaça” de Jair Bolsonaro. A sua concorrente mais direta, quando não chora a “educação em ruínas”, dá a palavra a Eduardo Cunha para atacar Sergio Moro e lamentar a “destruição da elite política”.

Os jornalões criticam Bolsonaro, Aécio e Doria, além de tudo que lembre Temer e a turma das malas de dinheiro. Descobriram que não são flores que se cheire.

Os jornais também atacam Moro, Janot e estrelas menores da Lava-Jato, agora não mais tratados como os salvadores da pátria corrompida. Batem indistintamente no MBL e nos generais golpistas, advertindo a nação para os riscos do extremismo político. Protestam contra os atos de censura e as agressões morais a artistas.

É até engraçado ver tudo isso, quando se tem algum ânimo para o humor negro.

A imprensa se arrepende, mas, como é do seu feitio, não faz nenhum ato de contrição nem, muito menos, pede perdão pelos pecados. Autocrítica e pedido de desculpas, isso é só para o PT fazer. Não para os faróis da opinião pública, os oráculos da vida social.

Afinal, não foi a imprensa que deu credibilidade e amplo espaço para a ultradireita de Bolsonaro, MBL e outros fascistas se fortalecer, quando viu nela um ariete contra o PT e seus governos.

Não foi ela que legitimou o golpe parlamentar de Cunha, Aécio e Temer como “impeachment constitucional e democrático”, sem levantar a mínima dúvida sobre a sua legimitidade e participando das manobras para criminalizar atos de governo perfeitamente normais de Dilma Rousseff.

Não foi ela que deu gás a João Dória para se lançar numa aventura presidencial, assim que os paulistanos elegeram o seu prefeito itinerante.

Não foi que ela apoiou e defendeu a justiça de exceção da Lava-Jato, desde o momento zero, e que contribuiu para fazer de Moro, Dallagnol e Janot uns heróis nacionais.

Ela não tem nada a ver com isso, certo?

A mesma mídia que celebra a sua grande penetração no país e o prestígio que julga ter com o público, faz de conta que não pauta a agenda política. Finge que nada tem a ver com o desastre político, econômico e social que o golpe de 2016 produziu.

Não criou os corvos, não cevou o ódio, não plantou a semente do golpe, não festejou o governo golpista e nem apóia o rosário de maldades que ele pratica.

Essa é a imprensa que se diz indignada com as fake news e a pós-verdade, que interditam o debate democrático no país. É uma imprensa que só enxerga o que quer – e não vê que o seu cinismo descarado é a mais constrangedora das fake news.

2 Comentários

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Ana Resende

19/10/2017 - 11h17

Pensa, sim, Gabriel, daqui a uns 40 anos – talvez em outro ciclo democrático, como fizeram recentemente em relação a 64. Se tudo der certo, é claro.

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Claudia Paraiso

16/10/2017 - 17h34

Bravo!!! Será que vai noticiar uma desculpa daqui a 50 anos?

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