Homens, larguem o microfone e botem o fone de ouvido!

Depois da carta das atrizes francesas, aconteceu o óbvio. Veio a reação dos homens. Esses moços, pobres moços. Alguns, até bem intencionados, querendo ajudar e somar. Mas, sempre com a síndrome do microfone.

 

Nessa semana, o assunto indiscutível seria a farsa do julgamento do dia 24, que como em uma música do Caetano e do Wisnick, de 2005, é uma partida começada 45 minutos antes do nada. Essa música para mim é meio profética do Brasil de 2018. Ela trata a história do mundo como um imenso Fla x Flu.

Mas, dá para uma mulher feminista, neste momento, tratar de outro Fla x Flu que não seja o que vem acontecendo depois do rompimento do silêncio das mulheres? Não dá. Então, vamos lá de novo.

Depois da carta das atrizes francesas, aconteceu o óbvio. Veio a reação dos homens. Esses moços, pobres moços. Alguns, até bem intencionados, querendo ajudar e somar. Mas, sempre com a síndrome do microfone. Sempre querendo falar alto. Outros muito apavorados, se sentindo atacados: “não, eu não sou assim”. Achando que é tudo sobre eles. E muitos, muitos, muitos querendo ditar qual seria a melhor estratégia. Essa não é a melhor estratégia, e a melhor estratégia quem sabe dizer para nós são eles, os homens.

Homens, rapazes queridos vocês são o manche que trouxe o mundo até esse lugar violento e árido em que a gente se encontra. Deixem a gente fazer as coisas do nosso jeito um pouco. Agora a gente vai falar. Larguem o microfone e botem o fone de ouvido. Eu sei que não é fácil e não é pouca coisa. É muita.

Os brancos e brancas que se identificam com a luta antirracismo e a veem como algo fundamental, necessário e intransponível, quando frequentam os movimentos negros sempre a mesma coisa. Sentem que ali, e oxalá daqui pra frente com cada vez mais força, é a vez dos pretos falarem. Porque eles já ficaram em silêncio por muito tempo. E a gente é parte do problema. Todo branco, por menos que se identifique como racista, faz parte de uma estrutura que os privilegia. Com os homens, dentro do feminismo, é a mesma coisa. É incômodo se ver parte do problema. Dói, mas tem que escutar. Tem que se dar conta do que acontece. Porque, senão, nenhuma mudança vai ser possível. É metade do mundo, os homens são metade do mundo, os brancos são metade do mundo.

Então, têm que se dar conta. Têm que poder participar da mudança ativamente. E isso é muita coisa, não é pouca.

Mas, isso se dá a partir da escuta. Essa tomada de consciência só vocês podem fazer. A gente não tem como resolver esse problema para vocês. Tem que partir de vocês essa compreensão. A gente é antifascista, a gente não é moralista. Muito ao contrário, a gente quer liberdade para que cada um possa ser como é. E a gente não quer calar ninguém. Agora, fale com os seus semelhantes, fale com seus ‘parças’. Promova mudanças. Mas não queira falar alto em uma hora em que a gente está interrompendo um silêncio de séculos. O feminismo e o antirracismo são os movimentos que estão conseguindo o que todo mundo deseja, que é furar as bolhas é cair na discussão popular. Respeita isso, respeita as mina, respeita os preto. Porque o lado reacionário desse Fla x Flu virá com força total porque é isso que os reacionários fazem: vim no contra fluxo, na reação, justamente.

A bancada fundamentalista no Brasil já anunciou o seu objetivo de nas próximas eleições aumentar o número de deputados de oitenta para cento e cinquenta. Com a pauta primordial, todo mundo sabe, de estancar qualquer avanço e se possível fundar todos os retrocessos justamente nas pautas de gênero e nas pautas antirracistas. Escolhe de que lado você quer ficar. Porque a guerra vai ser dura, vai ser longa, vai ser dolorida e exaustiva. Agora, tem saída. Que é, inclusive, o nome desse livro maravilhoso, feito só por mulheres. O primeiro livro do Brasil organizado e escrito só por mulheres, propondo saídas à esquerda para o buraco em que a gente se encontra. Tem saída. Vamos lá!

Nenhum Comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do NOCAUTE. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Deixe uma resposta

Recomendadas