GABRIEL PRIOLLI: DENUNCISMO DESNOTICIOSO

A construção de narrativas jornalísticas duvidosas está longe de ser um problema exclusivo do submundo da internet. Ele também existe no mundo oficial da imprensa.

DENUNCISMO DESNOTICIOSO
A presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmem Lúcia, alertou recentemente para os perigos da mentira na internet.
Falando a uma platéia de barões de mídia, a ministra disse o seguinte: “Você pode hoje construir uma notícia, uma narrativa, dotá-la de perfeita coerência, espalhar pelas redes sociais, colocar meio mundo a favor daquilo, simplesmente sem que aquilo tenha acontecido”.
Sem dúvida, esse é um problema gravíssimo, mas a Sra. Ministra, se percebeu, não acrescentou que a construção de narrativas jornalísticas duvidosas está longe de ser um problema exclusivo do submundo da internet.Ele também existe no mundo oficial da imprensa.
Veja-se, por exemplo, a série de reportagens que o portal UOL publicou, com o objetivo de mostrar como os três maiores partidos do país utilizam os recursos do Fundo Partidário.
“PSDB usou fundo partidário para pagar viagem de Aécio a Nova York”, diz uma das manchetes.
“De Cuba a França, PT usa fundo partidário para pagar viagens a dirigentes”, diz outra.
“PMDB pagou uísque para campanha de Cunha e churrasco com linguiça no PR”, afirma uma terceira.
Diante delas, o que pode pensar o leitor médio atual da imprensa? Que opinião pode ter este cidadão que só lê os títulos das matérias e, com base neles, acredita em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa e nas virtudes da PEC 241?
A opinião de que o Fundo Partidário é uma tremenda maracutaia, evidentemente… Mais uma maracutaia, no país mais corrupto do Universo.
O pequeno detalhe é que em nenhuma das matérias foi apontada qualquer ilegalidade. Os próprios textos esclarecem isso.
Custear viagens de parlamentares ao exterior, assim como a compra de comida e bebida para eventos, é previsto pelo Fundo Partidário. Bebida alcoólica não pode, mas a matéria não confirma se o PMDB pagou o uísque com dinheiro público ou com receitas lícitas.
Assim sendo, se tudo foi legal, qual é a notícia? Qual o sentido de publicar um informe sobre o nada, para que milhares de tolos acreditem estar diante de uma grave irregularidade?
De fato, Ministra Carmem Lúcia, é possível construir narrativas sobre fatos que não aconteceram. Hoje e sempre. O que parece impossível é a grande imprensa desembarcar do denuncismo compulsivo, que a leva a sugerir crime em tudo, até onde ele não existe.
O país já está suficientemente envenenado pelos fatos reais e pela guerra cruenta das narrativas em torno deles. Não precisa de peçonha adicional, inoculada pela desnotícia do que não é fato.
5 Comentários

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Marly A A Zacarias

24/10/2016 - 09h23

Duvido q os magistrados em final de carreira, estejam suficientemente aptos a buscarem alternativas de informação fora do circuito da gde imprensa.Observam as análises dos grandes jornais internacionais ou se dignam ler grandes jornalistas,hoje descartados das mídias brasileiras,justamente pq comprometidos com a isenção, com interesses nacionais,com a observação da verdade.

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JOSE RENATO ALMEIDA

24/10/2016 - 08h51

A organização criminosa, que saqueia os recurso públicos do país há décadas, vem legalizando tudo que é procedimento criminoso, aético, imoral ou que engorde o caixa 2 dos partidos e os bolsos de seus membros do alto escalão do poder.

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Cícero Soares

23/10/2016 - 17h24

Na mosca, Priolli. É exatamente o que, desde alguns anos, anda ocorrendo nas redações da mídia corporativa: o “jornalismo” dela arregou, assumiu os mesmo métodos de fabricação de narrativas-mentiras provenientes da internet. Ao perverter o sentido da notícia e da investigação jornalística no non-sense sujo de fofocas e destruição de reputações, a imprensa tradicional tornou-se um mero espelho do submundo digital.

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Marola

22/10/2016 - 14h48

Essa sra. não faz a menor diferença, a não ser para o PIG, é claro. O STF já vive em contubérnio indecoroso com os barões da mídia há bastante tempo, Ayres Brito, Gilmar Mendes, o lamentável Celso de Mello, para citar apenas alguns. Tudo dominado no excelso pretório.

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