Existe vida que vale menos ou mais?

Até quando a gente vai topar viver num lugar que determina e quantifica o valor de uma vida pela cor da pele? Por Camila Kfouri


Uma mulher negra e jovem corre no Brasil o dobro do risco de ser assassinada do que uma mulher branca. Isso é o que diz o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, organizado pela Unesco e que, agora em 2017, traz pela primeira vez um recorte de gênero.

Para os homens, o risco de ser assassinado sendo negro é três vezes maior do que sendo um branco. E essa é a média nacional. No estado do Rio Grande do Norte, por exemplo, uma mulher negra corre oito vezes mais risco de ser assassinada do que uma mulher branca.

Até quando a gente vai topar viver num lugar que determina e quantifica que vida vale mais ou menos pela cor da pele? Existe vida que valha menos ou mais?

Quando a Elisa Lucinda diz no Roda Viva, que você viu, né? Se não tiver visto, corre para ver, porque se até a TV Cultura, dominada pelo governo Alckmin, já entendeu que não vai dar mais para passar batido por esse tema, não é você que vai passar, né?

Mas enfim, a Elisa Lucinda disse que nos hospitais os negros recebem menos anestesia que os brancos. Isso não é uma metáfora nem um achismo. É um conhecimento trazido por uma pensadora negra. E é a realidade. O corpo negro não merece cuidado. O corpo negro não merece acesso à educação como dos brancos. O corpo negro não merece nada. Dele só se exije que sirva, que se submeta, que obedeça as regras, que valorize o corpo dos brancos como o dele próprio jamais foi.

E mesmo cumprindo todas as leis e regras, o negro ainda corre sérios riscos de acabar numa cadeia hiperlotada ou morto pela polícia, como aconteceu e acontece com tantos Rafaeis Braga, com tantos Amarildos. Às pessoas pretas tudo é negado e tudo é exigido. Um branco não faz a menor ideia do que é se constituir como pessoa num ambiente que diz o tempo inteiro que não, ele não é uma pessoa.

O racismo é a face mais perversa da luta de classes, porque ele assassina em vida e ainda assassina uma vez mais. A Angela Davis diz com muita propriedade que num mundo racista, não basta não ser racista – tem que ser anti-racista. E por isso a obrigação dos brancos é ler os pensadores e pensadoras negros. Tem uma geração de jovens brasileiras negras maravilhosa que está preparadíssima para falar. São a primeira geração de suas famílias que têm acesso à universidade, são as filhas mais potentes do lulismo e que trazem com elas as gerações anteriores, as ancestrais delas, que embora tenham sido privadas da educação formal, são heroínas e revolucionárias e sábias, pelo simples fato de terem conseguido sobreviver num mundo que tenta matá-las sistematicamente.

Leia o livro da Djamila Ribeiro, “O que é lugar de fala”, leia o livro da Juliana Borges, sobre o encarceramento em massa. Os dois acabaram de sair pela editora Letramento. Leia, leia as intelectuais e pensadoras negras. Elas têm que ocupar tudo. Inclusive o Nocaute. Queremos mulheres negras no Nocaute.

3 Comentários

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Leonardo Leão

16/12/2017 - 12h53

Em estado de choque: que profunda dor que dá saber que, entre nós, ainda há os que intencionalmente não aliviam a dor do outro pela cor da pele.
Assisti ao vídeo. Depois fui ler a transcrição.
Que terrível realidade!
E ainda – pior! – ainda há os que me cobram tolerância…

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Wagner Martos

16/12/2017 - 10h08

Bingo !!!
Queremos mulheres negra no Nocaute.
Mulheres negras de fato e de direito; mulheres que representem a luta contra o odiento e odioso racismo. (Mulheres negras, nada de Luizlinda Valois)

Queremos mulheres negra no Nocaute.
Queremos mulheres negra no Nocaute.
Queremos mulheres negra no Nocaute.
Queremos mulheres negra no Nocaute.
Queremos mulheres negra no Nocaute.
………..
Queremos mulheres negra no Nocaute.

Responder

    Leonardo Leão

    16/12/2017 - 12h55

    Apoiado! Entusiasticamente.

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