Fernando Morais declama Gilberto Freyre e repete, como em 2002: a esperança vai vencer o medo.

Diante do ressurgimento da campanha terrorista da elite golpista contra Lula, o editor de Nocaute lê o poema de Gilberto Freyre que inspirou o bordão da vitoriosa campanha de Lula em 2002. As imagens são do cineasta Claudio Kahns, cujo reflexo pode ser visto na porta de vidro.

Vocês devem estar notando que recomeçou a campanha terrorista contra a candidatura do Lula. Quanto mais ele sobe nas pesquisas, mais os arautos do caos esgoelam:

Se o Lula ganhar, a economia vai desabar!

Quanto mais ele enche as praças, mais eles esbravejam:

Se o Lula ganhar, o dólar vai para os cornos da lua!

Essa tática das elites é mais velha do que a Sé de Braga.

Quem não se lembra, na primeira campanha do Lula, o presidente da FIESP, Mário Amato, anunciando que se o petista ganhasse a eleição, oitocentas mil empresas iriam embora do Brasil? Isso mesmo: oitocentas mil indústrias iriam botar a viola no saco e cantar noutra freguesia.

O ápice da campanha terrorista aconteceu em 2002, quando a atriz Regina Duarte foi à televisão fazer o famoso “discurso do medo”.

Dias depois da tenebrosa aparição de Regina, fui ao Rio participar de um ato de apoio de artistas e intelectuais ao Lula. Milhares de pessoas se espremiam na Churrascaria Porcão, no Aterro, quando Gilberto Gil, um dos organizadores do ato, me informou que eu ia falar em nome dos escritores.

Apanhado de surpresa e sem saber o que falar, lembrei que eu levava, amarrotado dentro da mochila, um poema de Gilberto Freyre, de 1926, que uma amiga pernambucana me mandada pela internet dias antes.

Confesso que nem sabia que Gilberto Freyre poetava. Mas o tal poema dele, escrito quatro anos antes da Revolução de 30 – Revolução que ele apoiaria e com a qual depois romperia –, parecia uma premonição.

Para mim, era um achado: contra o medo semeado por Regina Duarte eu acenaria com a esperança de Gilberto Freyre de quase oitenta anos antes.

Em vez de fazer um discurso, li o poema, que é este:

 

O Outro Brasil Que Vem Aí

Gilberto Freyre, 1926

Eu ouço as vozes

eu vejo as cores

eu sinto os passos

de outro Brasil que vem aí

mais tropical

mais fraternal

mais brasileiro.

O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados

terá as cores das produções e dos trabalhos.

Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças

terão as cores das profissões e regiões.

As mulheres do Brasil em vez das cores boreais

terão as cores variamente tropicais.

Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,

todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor

o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil

lenhador

lavrador

pescador

vaqueiro

marinheiro

funileiro

carpinteiro

contanto que seja digno do governo do Brasil,

que tenha olhos para ver pelo Brasil,

ouvidos para ouvir pelo Brasil,

coragem de morrer pelo Brasil,

ânimo de viver pelo Brasil,

mãos para agir pelo Brasil,

mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis

mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e

norte-americanos a serviço do Brasil

mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).

mãos livres

mãos criadoras

mãos fraternais de todas as cores

mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,

sem Irineus

sem Maurícios de Lacerda.

Sem mãos de jogadores

nem de especuladores nem de mistificadores.

Mãos todas de trabalhadores,

pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,

de artistas

de escritores

de operários

de lavradores

de pastores

de mães criando filhos

de pais ensinando meninos

de padres benzendo afilhados

de mestres guiando aprendizes

de irmãos ajudando irmãos mais moços

de lavadeiras lavando

de pedreiros edificando

de doutores curando

de cozinheiras cozinhando

de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.

Mãos brasileiras

brancas, morenas, pretas, pardas, roxas

tropicais

sindicais

fraternais.

Eu ouço as vozes

eu vejo as cores

eu sinto os passos

desse Brasil que vem aí.

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