Joesley à Época: Nocaute selecionou os principais pontos da entrevista

Em entrevista à Época, o empresário alega não ter percebido que estava cometendo crimes, condena todos os partido brasileiros e diz "quem não está preso está no Planalto"

O presidente Michel Temer está fazendo jus ao discurso de permanecer no cargo a qualquer custo. Depois de ser apontado como o “número 1” do esquema de corrupção no Brasil por Joesley Batista, Temer anunciou que processará o empresário.

“Temer é o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil” é a afirmação do empresário do grupo J&F Joesley Batista que estampa a capa de uma das publicações semanais mais lidas do país.

Em entrevista à Época, a primeira depois de firmar um acordo de delação premiada, acusou Temer, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador afastado Aécio Neves (PSDB-SP), o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o operador financeiro Lúcio Funaro – que também busca um acordo de delação premiada.

A reação foi, no sábado, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República emitir uma nota afirmando que
Joesley “desfia mentiras em série”. “Na segunda-feira, serão protocoladas ações civil e penal contra ele”.

“O governo não será impedido de apurar e responsabilizar o senhor Joesley Batista por todos os crimes que praticou, antes e após a delação”, respondeu o presidente.

As acusações coincidem com a expectativa de a Procuradoria-Geral da República apresentar uma denúncia contra Temer. O presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia (PMDB-RJ), já declarou que o recesso parlamentar poderia ser suspenso para votar a aceitação de uma eventual denúncia.

Já o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), aliado de Temer, minimizou a possibilidade de a denúncia ser aceita pela Câmara: “É a mesma de o Sargento Garcia prender o zorro”, disse, à Folha de S.Paulo.

Na entrevista, Joesley se defendeu atacando o sistema político brasileiro. O empresário que, dias após a delação, já estava fora do país, alega ser a corrupção um problema institucional do Brasil. Atinge, segundo ele, ministérios, governos locais, estatais e acaba respingando nas empresas privadas.

Seu argumento é de que, para funcionarem, precisam “comprar políticos”. Afirma que a relação entre empresários e políticos se dá por meio de uma espécie de contrato informal.

Por que gravar Michel Temer

É um dos questionamentos feitos pela Época. Segundo Joesley, “Porque eu sabia que estava aumentando a chance de eu trocar de lado e partir para a colaboração com o MP. Era a única saída que eu estava enxergando. Eu precisava de uma colaboração efetiva”.

Diz ainda que “Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro”.

“A pessoa a qual Eduardo [Cunha] se referia como seu superior hierárquico sempre foi o Temer”.

Se Michel Temer é o chefe da quadrilha, o empresário afirma que o número 2 é Aécio Neves.

“Vou registrar como se dão as conversas com o número 1 da República e com o número 2, que seria a alternativa ao 1. Se o Brasil não entendesse que o 2 era igual ao 1, o Brasil ia achar que a solução era substituir o 1 pelo 2. Mas o 2 é do mesmo sistema”.

Sobre a autenticidade da gravação, ele garante: “gravamos e entregamos. Podem fazer todas as perícias do mundo. Tentam qualificar o áudio por desespero”.

Em sua defesa, o empresário diz não ter percebido que estava fazendo parte deste esquema de corrupção, que tanto critica nesta entrevista.

“E, para falar a verdade, até fazer a colaboração premiada, nós não tínhamos a consciência de que fazíamos parte de uma organização criminosa e tampouco de que lidávamos com organizações criminosas”.

Questionado sobre o que o levou a pagar propina, devolveu a pergunta. “E aí nasce a discussão: eu corrompi ou fui achacado?”.

A reportagem, então, pergunta se ele se considera “só uma vítima”. “Claro que não. Mas, se você observar os anexos da nossa delação, está lá: nós dávamos dinheiro para conseguir algo que estava dentro do nosso direito”, argumentou.

Depois, Batista diz que não deveria ter cedido às chantagens.

“A corrupção virou regra do jogo. Muitas vezes não chegava explicitamente a ter dificuldade. Mas tive casos clássicos de chantagem. Por exemplo, na Caixa, com Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, que mandavam em gente lá. Se eu não aceitasse pagar, o crédito legítimo que eu havia pedido não era apreciado”, disse.

Afirma que políticos do PMDB foram colocados em cargos estratégicos na Caixa Econômica Federal “por uma organização criminosa”, e que tinham poder para aprovar ou barrar um negócio.

“Eu não achei que estava lidando com organizações criminosas. Hoje é que percebo isso”, insiste o empresário.

“Quando entendi a estrutura do Ministério Público e a força da Lava jato, comecei a entender o que estava acontecendo no Brasil. Comecei a perceber que a mudança no país era muito profunda. E que jantar nenhum com político ia resolver nossos problemas”.

Por que não gravou Lula

Joesley acusa o PT de ter iniciado o processo de institucionalizar a corrupção no Brasil: “o modelo do PT foi reproduzido por outros partidos”. “Mudam os nomes, mas o sistema permanece igual”.

A reportagem questiona se não teria sido importante para o país ter gravado e divulgado também uma conversa com Lula. Respondeu: “porque eu nunca tive conversa não republicana com o Lula. Zero. Eu tinha com o Guido. Conheci o Lula no fim de 2013”.

Após a publicação da Época, Lula também emitiu uma nota de repúdio:

“O governo do ex-presidente Lula foi o que mais combateu a corrupção no Brasil, adotando fortes medidas de transparência pública, como a criação da CGU, e leis mais eficazes contra o crime organizado, além do fortalecimento da Polícia Federal e o respeito integral ao Ministério Público.

Os avanços no combate à corrupção no governo Lula – e no de sua sucessora, Dilma Rousseff – foram reconhecidos publicamente pelos mais diversos setores, dentro e fora do Brasil, inclusive pelos coordenadores da Lava Jato.

Joesley Batista negocia o mais generoso acordo de delação premiada da história e, mesmo nesse contexto de troca de acusações por benefícios penais, não apontou qualquer ilegalidade cometida, conversada ou do conhecimento do ex-presidente Lula”.

4 Comentários

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C.Poivre

18/06/2017 - 21h13

A lição de Eugenio Aragão ao especulador de imóveis do “Minha Casa, Minha Vida”, travestido de “procurador”.

http://jornalggn.com.br/noticia/sobre-palestras-e-a-apropriacao-do-publico-pelo-privado-por-eugenio-aragao

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José Eduardo Garcia de Souza

18/06/2017 - 16h08

Perdão, mas a nota do Planalto não teve nenhuma ameaça de que Temer iria processar Joesley. A nota diz claramente que Temer VAI processar Joesley, civil e criminalmente. Ameaça é algo que pode ser que não se cumpra e estes processos vão ser abertos na Segunda-feira, 19/06.

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José Lopes

18/06/2017 - 13h14

Vejamos o que disse Jorge Hage ex Ministro Chefe da CGU (controladoria Geral da União) –

“Eu tenho muita clareza de que um dos principais antídotos, ou se você quiser, vacinas contra a corrupção, é a transparência. Quanto mais transparência você der a tudo que se passa dentro da administração, a começar pelo uso do dinheiro público, menos você está sujeito a ver casos de corrupção acontecer. Só que, no início, quanto mais você der transparência, mais verá a corrupção, mais a população vai tomar conhecimento dela. Então, costumo dizer que nos primeiros momentos, uma política de incremento da transparência pode apresentar efeitos ou resultados aparentemente perversos. Elas podem criar a impressão de que a corrupção está aumentando, quando, na verdade, está aumentando a visibilidade dela. Tudo que estava debaixo do tapete, vem à superfície. Todo esgoto que estava embaixo do ralo, sobe para a superfície e o mau cheiro pode ser extremamente desagradável. (…)

A partir daí, a nossa caminhada foi sempre na linha de aumentar a transparência, ampliar a investigação e, portanto, também ampliar a resolução dos problemas. Sozinho não, de forma nenhuma, mas sim, trabalhando junto com a Polícia Federal, Ministério Público, Tribunal de Contas, COAF e imprensa.”

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Fábio de Oliveira Ribeiro

18/06/2017 - 12h57

Certa feita o Barão de Mauá cobrou na Justiça a dívida de um aristocrata. Ele perdeu a ação. Depois foi condenado a indenizar o adversário.

Não subestimem a inJustiça brasileira. É óbvio que Temer a conhece melhor do que o Nocaute. Joesley que se cuide, pois ele vai se dar mal.

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