Origens históricas das relações militares entre Brasil e Estados Unidos

Em entrevista exclusiva ao Nocaute, Pedro Scuro, sociólogo e jurista, Ph.D. pela Universidade de Leeds (Reino Unido), onde foi orientado por Zygmunt Bauman, fala das relações Brasil x EUA e analisa as ações militares do governo Temer na base de Alcântara e na Amazônia.

 

Eu fico preocupado porque nós temos uma perspectiva um pouco desinformada sobre o que está acontecendo lá em Alcântara, o que está acontecendo na Amazônia. Eu digo porque as relações militares do Brasil com os Estados Unidos são relações muito complicadas. Elas vêm desde a época da Segunda Guerra Mundial. Que, aliás, está muito bem escrita em um livro do Fernando Morais sobre Chateaubriand. Nesse livro está demonstrado como o Brasil acabou entrando nessa guerra por conta de pressões da sociedade civil. Quer dizer, não foram os militares brasileiros que quiseram ir para a Itália ou lutar na Europa contra o Nazismo. Na verdade, foi a sociedade civil que fez isso. Então, eles tiveram que organizar a FEB e foram para Europa. O certo é que os militares brasileiros não quiseram saber dessa continuidade da FEB lá na Europa. Mandaram voltar todo mundo. Voltaram desmilitarizados, quem voltou para cá, já voltou como civil.

Muito bem, só que os americanos pensaram que as relações militares do Brasil com eles ficaram muito boas. E aí depois da guerra, depois que o Getúlio caiu houve aquele problema da guerra da Coreia. Os americanos ficaram bastante desesperados porque começou a morrer muito americano nessa história. E começaram a formar uma frente militar da ONU. E os mesmos comandantes aliados que estiveram lá na Europa vieram aqui para o Brasil querendo convencer os militares brasileiros a irem também lutar na Coreia. Só que o Brasil não topou isso. O general Góes Monteiro foi a Washington e fez exigências aos americanos. Exigiu que os americanos equipassem militarmente o Brasil com armas modernas. E mais: exigiu que para ir a Coreia fizessem um convite expresso ao Brasil. Os americanos não gostaram disso e desde então as relações Brasil e Estados Unidos melaram.

Outro acontecimento importante – eu acho que é mais grave, porque nós estamos vivendo isso ainda – foi a participação do Brasil nas forças armadas que atuaram no Haiti. Sendo que o Brasil, por pelo menos duas vezes, teve comandante dessa força militar. Essa experiência é fundamental para que a gente entenda o que está se passando na Amazônia hoje em dia. O que está se passando na Amazônia e talvez na questão de Alcântara.

No Haiti, quando o general brasileiro Heleno era o comandante, ele ficou muito preocupado com a pressão americana de reprimir. Usar a tropa brasileira para reprimir a população no Haiti. Havia também uma pressão muito grande da parte dos empresários haitianos. E eles se organizaram para derrubar o Jean-Bertrand Aristide, então presidente do Haiti. Acabaram derrubando quando o Aristide cometeu o pecado supremo: dobrou o salário mínimo. Aí então fizeram o golpe e derrubaram o Aristide.

No Brasil era o governo Lula ainda. Então, havia essa pressão em cima do general Heleno, ele acabou autorizando uma ação do exército brasileiro com tanques, aviões, naquela famosa Cité Soleil. E ali morreu muita gente. Muita criança, muita mulher, muito civil. Foi uma coisa horrível.

Depois disso, o Brasil acabou enviando um outro comandante. Já o general Bacellar, e ele tinha a mesma posição do general Heleno. Aí quando houve uma nova insistência da ONU para uma nova operação contra aqueles que eles chamavam de rebeldes, ele se recusou. E o general Bacellar foi assassinado. Isso saiu na imprensa internacional, saíram documentos secretos do Wikileaks sobre isso. E aqui na época se publicou que foi um suicídio.

Quando a gente fala do que está acontecendo na Amazônia, eu acho que a possibilidade do Brasil vir a entrar numa ação de agressão a Venezuela, se for simplesmente da experiência dos militares brasileiros, eu acho inviável.

Agora, como é que essa operação se viabilizou diante desse clima? Os brasileiros não estão mais no Haiti. É que tem um outro fator. O outro fato é que o principal conselheiro militar do presidente Trump é o general Ricky Wadell. Um militar muito bem formado. Ele tem mestrado em História e Português em Oxford, tem doutorado em Relações Internacionais. E viveu aqui em São Paulo. Ele viveu doze anos aqui em São Paulo. Foi CEO da Anglo Ferrous aqui em São Paulo.

E também o excelente relacionamento militar do Brasil com a China, que é o inimigo potencial dos Estados Unidos. A China vem com um ótimo relacionamento militar com o Brasil desde da década de 90. E eles têm lá uma Universidade de Segurança Pública e uma Universidade de Defesa Nacional. E os chineses estão muito interessados naquela escola de guerra na selva em Manaus do Exército brasileiro. Que é uma excelente escola. E os chineses foram lá e participaram, convidaram os brasileiros para ir para China para ajudar na montagem de uma escola chinesa de guerra na selva.

Além desse relacionamento muito bom que a China teve com o Brasil no aspecto econômico, atualizando as coisas, eu vejo essa presença chinesa muito importante para o que está acontecendo agora na Amazônia, para o que está acontecendo agora em Alcântara. Os americanos que nunca se incomodaram com o Brasil do ponto de vista militar. Eu mencionei aqui o fato da Coreia, da Segunda Guerra Mundial. Nós estamos diante de fatos novos.

Quando eu vejo que existe muita preocupação e realmente deve haver essa preocupação com ameaça a nossa soberania, eu tenho que levar em consideração também esses fatos.

12 Comentários

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Lafaiete Spínola

15/11/2017 - 17h17

Até o Ministro da Guerra Silvio Frota; que foi afastado pelo Presidente Geisel por ser um ferrenho defensor pela continuidade da ditadura, em seu livro; externa contrariedade pela maneira arrogante e experta, como o poder militar americano oferece suas sucatas ao Brasil para depois fornecer peças de reposição a preços abusivos. Assim, ele se tornou um defensor do desenvolvimento da indústria bélica nacional, apoiando muitas decisões nacionalistas do Geisel nessa área.
Os EUA tomaram, aproximadamente, metade do território do México!
Os donos do poder, nos EUA, continuam planejando o domínio dos países sem rumo!
Para dominar o Brasil e continuar fornecendo sucatas, procuram incentivar a desavença e o ódio internos. É a regra: Divida para reinar!
A nossa prioridade é lutar por uma educação de alta qualidade! Sem isso não seremos soberanos e independentes.
Só assim:
https://www.facebook.com/LafaieteDeSouzaSpinola/posts/536024086555004

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marcosomag

12/11/2017 - 19h51

OS estadunidenses sempre tiveram muito interesse nos militares brasileiros após a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Promoveram com muito dinheiro e instrutores a Escola Superior de Guerra, que visava a doutrinação dos novos oficiais brasileiros contra o “comunismo” e a aceitação por parte do oficialato da presença econômica, e depois, militar, dos estadunidenses em nosso país. Os velhos militares vindos do “Tenentismo” detestavam os EUA pelo histórico de conflitos de interesses entre os EUA e o Brasil que vinha desde o Império. Não é à toa que os atuais dirigentes militares do Brasil aceitaram de bom grado os exercícios militares com os estadunidenses na Amazônia brasileira. Algo impensável até os anos 70, nos quais velhos oficiais influenciados pelo “Tenentismo” implantaram as 200 milhas naúticas como fronteira marítima do Brasil, assinaram o acordo nuclear com a então Alemanha Ocidental (contornando as proibições estadunidenses) e foram os primeiros a reconhecer as independências de Angola e Moçambique contra a vontade dos EUA.

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    Pedro Scuro

    14/11/2017 - 14h01

    O interesse dos EUA pelo Brasil, Marcos, se efetiva prioritariamente no setor privado, conforme se verificou recentemente. Foi assim também antes do golpe de 1964. Quanto aos militares brasileiros, não contam com a irrestrita confiança de Washington, e sobre isso mencionei alguns incidentes.

Azarias Esaú dos Santos

12/11/2017 - 15h21

Me parece que foi no governo FHC que começou a ida de elementos das FFAA e das PMs de todos os Estados, para os EUA. Afim de se aperfeiçoarem, por treinamentos, nas atuações contra distúrbios sociais e movimentos populares. As estadias no Haiti era um dos complementos destes treinamentos. Uma das características visíveis destes aprendizados foi acabar com as áreas de treinamentos ( terrenos baldios, áreas isoladas e desabitadas ou mesmo dentro de quartéis), e agir nos momentos reais, ir para ações “in loco”, para repressão imediata, ataques cronometrados aos movimentos populares e distúrbios sociais(?). Tanto é que não se consegue dialogar com comandante nenhum. A ordem foi emitida, tem de ser obedecida; Ataque é ataque. A policia civil foi totalmente desmobilizada; não há mais politica de prevenção, onde a policia civil agia cientificamente, em ações investigativa. Polícia agora é na repressão. Compra-se em Israel veículos blindados, carros-brucutus com armas sofisticadas e mangueiras com jatos d’água e lanças-chamas. Todas estas compras sem licitações. Projeto dos EUA é fazer uma Guarda Nacional em cada país latino-americano e eles (os estadunidenses) serem os responsáveis pela segurança do continente.

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Thomaz Cardoso de Oliveira

12/11/2017 - 11h51

Faltou historiar o político e o velado dessas relações. Mais do que em operações e não operações de guerra, as relações entre as forças armadas brasileiras e americanas parecem mais mediadas pelo advento, no Brasil, em razão da sua participação na segunda guerra mundial, da Escola Superior de Guerra e da geopolítica gestada na instituição, de atrelamento ideológico do Brasil à política norte americana. Uma geopolítica no mínimo exdrúxula, diga-se de passagem. Complexo de Vira Latas, diria Nelson Rodrigues. Contudo, nem tudo são flores, pois é notória a interferência norte americana em nossa história, sobretudo pelos golpes. E é para reafirmar isso, ao que parece, que Alcântara já explodiu uma vez, em agosto de 2003, vitimando 21 técnicos brasileiros de alto nível que trabalhavam no projeto do foguete VLS. Ademais, já é pública, através de telegramas da diplomacia norte americana revelados pelo Wikileaks, da sua disposição em ações concretas para impedir, dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: tecnologia espacial e energia nuclear; que o diga o Almirante Othon. Sendo assim, que relações são essas???

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    Pedro Scuro

    14/11/2017 - 14h08

    Tens toda razão, Thomas, faltou contar o político e o velado. Por exemplo, no Haiti, onde o pano de fundo da importante presença militar brasileira foi o desejo do governo brasileiro de fazer parte permanente do Conselho de Segurança da ONU. Foi o pano de fundo e a causa de os comandantes brasileiros aceitarem reprimir a população em Cité Soleil. Foi o pano de fundo e a causa do governo brasileiro aceitar a imposição dos EUA e dos líderes do empresariado haitiano, que queriam Aristidi bem longe. Foi o pano de fundo e a causa de governo e militares silenciarem acerca do assassinato do General Urano Barcellar.

Mauricio

12/11/2017 - 10h05

Discordo da análise do professor. A aproximação entre os militares brasileiros e os estadunidenses realmente se deu com a FEB na Segunda Guerra. Entretanto, estas redes de contatos pessoais foram muito bem exploradas pelos estadunidenses durante a Guerra Fria. Basta relembrar a ação do Adido Militar dos EUA no Brasil em 1964, o senhor Vernon Walters – amigo pessoal de Castello Branco – que teve papel decisivo na ponte com Washington para a realização do Golpe Militar.
O alinhamento dos militares golpistas com os EUA foi notório e bem representado por sua postura internacional: “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. A Escola das Américas, no Panamá, contou com a frequência de diversos militares brasileiros como seus alunos – a “escola” era um centro de ensino de tortura e ações subterrâneas capitaneada pelos EUA, que “ensinava” aos seus alunos sul-americanos a arte da contra-insurgência e os doutrinava ideologicamente.
Uma breve pesquisa revela o elevado número de militares, hoje, cursando nos EUA. A Operação Amazonlog é apenas uma parte de uma operação maior (Operação Culminating) que prevê o envio de uma companhia brasileira inteira para os EUA – uma ótima forma de se aprender a receber ordens de estrangeiros. Os cursos de Manaus contam a anos com a participação de militares estadunidenses (Rangers). Está previsto intercâmbio de oficiais do Exército (mandamos oficiais para lá e eles mandam seus oficias para cá) na área de inteligência com os EUA – qualquer leigo sabe que não se faz intercâmbio em inteligência. Alguém acha que os estadunidenses vão permitir que um oficial brasileiro tenha acesso à forma como eles processam suas informações lá? Mas o problema é aqui. Como o Exército brasileiro irá tratar os oficiais que vierem? Que acessos terão no nosso setor de inteligência?
Mais uma, o atual Comandante da Marinha morou e atuou nos EUA, por dois anos, como instrutor da Escola Naval de Anápolis.
Alguém ainda duvida da influência que os EUA exercem sobre os militares brasileiros?

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    Pedro Scuro

    14/11/2017 - 13h56

    A FEB foi uma força paisana, Maurício, composta quase inteiramente por voluntários civis. Foi desmobilizada – apesar dos apelos dos comandantes aliados para que ela permanecesse na Europa – pois aqui no Brasil os comandantes militares receavam que ela, que chamavam de “Exército de Getúlio” voltasse e criasse problemas. Contudo, quando foi deflagrada a guerra na Coréia, os mesmo comandantes usaram o legado da FEB para falar grosso com os gringos, que queriam uma divisão brasileira na frente de batalha. Não deu certo, e desde então a tratar as Forças Amadas brasileiras no mesmo pé de igualdade com as demais da América Latina. Se houver uma “queridinha”, agora é a Colômbia, que mandou 5 mil soldados para a Coréia.

Denise Assis

11/11/2017 - 21h22

A análise é boa, mas salta um período crucial para a história recente: a participação dos americanos no golpe de 1964. Até eles já admitiram. Por que estamos omitindo?

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    Pedro Scuro

    14/11/2017 - 13h37

    Tens razão, Denise, mas não omitimos, foi a entrevista que teve de ser editada. De qualquer forma, conforme você já percebeu, as relações militares entre os dois países são muito complicadas. No período anterior ao golpe de 1964, os EUA estiveram trabalhando duro para derrubar nossos governos eleitos e democráticos. No caso de Jango, em particular, o embaixador Lincoln Gordon escreveu ao presidente Kennedy recomendando um convite para o presidente visitar uma base militar nos Estados Unidos, especificamente para deixar bem claro o que aconteceria caso se as reformas continuassem. Além disso, a ofensiva americana se deu prioritariamente no setor empresarial, inclusive contando com militares que trabalhavam como executivos. Quando foi a hora, por não confiar nos militares brasileiros, os EUA mandaram uma frota, e depois o secretário de estado, Dean Rusk, mandou a conta, por intermédio do embaixador. Os golpistas pagaram, em ouro retirado da reserva brasileira, cerca de 200 toneladas. Na época isso causou muita insatisfação entre os militares, mas ficou assim mesmo …

Iurutaí

11/11/2017 - 20h07

Ler esta matéria deu-me a exata medida da falta que fará o Moniz Bandeira…

Responder

    Pedro Scuro

    15/11/2017 - 13h39

    Verdade. O Professor Moniz Bandeira mostrava como o relacionamento entre os dois países nuunca foi muito tranquilo. No século XIX, o Brasil suspendeu três vezes (1827, 1847 e 1869) as relações diplomáticas com os Estados Unidos, e não aceitou, passivamente, sua hegemonia, ainda que, até a primeira metade do século XX, dependesse das exportações dos EUA. Depois, as coisas ficaram ainda mais complicadas.

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