Criminalização de coletivos quer legitimar violência contra chavistas

Vídeo mostra oposição venezuelana ateando fogo em um homem chamado de chavista durante manifestação em Caracas

A oposição ao governo venezuelano é uma das que recebe maior atenção por parte da imprensa que torce contra o presidente Nicolás Maduro. A exceção está acontecendo desde o último sábado (20/5), quando oposicionistas atearam fogo em um homem durante uma manifestação.

A vítima é Orlando Figuera, 21 anos, agora internado em estado grave em um hospital de Caracas. Tem queimaduras de primeiro e segundo grau em 54% do corpo, além de 6 ferimentos feitos com arma branca.

Manifestantes colocam fogo em homem durante protesto (Foto: La Jornada)

Depois de uma pessoa gritar que o homem era chavista, os manifestantes começaram a linchá-lo até que alguém jogou gasolina sobre seu corpo. O crime aconteceu na região da Praça Altamira, região nobre de Caracas.

Em reportagem especial, a colaboradora do Nocaute Aline Piva revela como o chavismo é criminalizado para justificar qualquer crime de ódio. Veja a seguir:

É cada vez mais comum encontrarmos a expressão “coletivos chavistas” em notícias sobre a Venezuela. Essa entidade misteriosa, sem sede, sem organização, sem liderança – mas que a imprensa tradicional insiste em caracterizar como o “braço armado do chavismo” – estaria por trás de todos os atos violentos no país, apoiados não só pelo governo de Nicolás Maduro, mas também pelas forças armadas do país.

Mas o que são, afinal, os coletivos chavistas? Coletivos chavistas são uma categoria [propositadamente] genérica, que abarca toda e qualquer expressão da organização do poder popular na Venezuela: comunas, conselhos comunitários, organizações de base, movimentos populares, agrupações culturais, grêmios estudantis, esportivos etc. São organizações que lutam pela construção de uma sociedade mais justa e representativa.

 

São a expressão do poder popular idealizado por Hugo Chávez e referendado pelos venezuelanos na Constituição de 1999: o povo organizado como protagonista de sua própria história. Porém, na lógica imposta pelos meios de comunicação e repetida ad nauseam pelos porta-vozes da oposição venezuelana, os coletivos seriam o aparato paramilitar do governo chavistas para garantir sua continuidade no poder.

Arte em muro do bairro 23 de Enero, em Caracas, um dos principais lugares de resistência popular (Foto: Nocaute)

Arte em muro do bairro 23 de Enero, em Caracas, um dos principais lugares de resistência popular (Foto: Nocaute)

Esse intento de demonização e criminalização das organizações populares tem objetivos muito claros. O primeiro e mais importante: deslegitimar a organização do poder popular por meio da desumanização daqueles que a compõe. Segundo: buscar um culpado genérico para todos os problemas do país – inclusive para a violência instigada pela própria oposição e pela imprensa tradicional.

Já não basta culpar Maduro ou tentar deslegitimá-lo por sua origem popular e sindicalista. É preciso criar o clima de que uma guerra civil encabeçada pelos coletivos se aproxima, justificando, assim, a necessidade uma “intervenção humanitária” no país. Mas, acima de tudo, essa estratégia serve para justificar toda e qualquer violência contra chavistas – sejam quadros do governo, sejam simples transeuntes que “tenham cara de chavistas”, ressaltando o componente de luta de classes presente nessa estratégia.

A necessidade de criar “inimigos genéricos” para atingir determinados objetivos políticos não vem de hoje, e é intrínseca de processos fascistas. A demonização cria um inimigo comum, um alvo simplificado, eliminando qualquer necessidade de contexto para análise e compreensão dos processos e justificando virtualmente tudo que possa levar à eliminação (ideológica ou até mesmo física) daquele inimigo. Não importa que a maioria das vítimas nesses atos violentos sejam integrantes da base chavista, ou líderes de organizações populares: ao demonizá-las, os perpetradores da violência têm suas ações, ao mesmo tempo, legitimadas e justificadas.

A criminalização dos coletivos, essa massa disforme e genérica, serve para neutralizar e deslegitimar as expressões do poder popular que vêm sendo construídas dentro do processo revolucionário venezuelano. Não deixa de ser uma estratégia eficaz, pois reconhece que a força desse processo revolucionário está assentada na organização popular. Se uma mentira contada mil vezes pode se tornar verdade, imagina quando essa mentira tem o apoio da grande mídia hegemônica?

3 Comentários

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Mario Henrique Brito e Silva

23/05/2017 - 00h34

José, comentário muito lúcido e brilhante, porém a dúvida no fim do comentário é bastante licita e pertinente se for enviesada para um certo recurso simples.A resposta está numa dialética insuperável: a cada ameaça maciça e gigantesca da fascistizacao- como sublinhou Atílio Boron- da sociedade venezuelana, a resposta é a criação contraposta em organizações coletivas.Para melhor compreender, leia o fragmento do capítulo do livro “Bonapartismo ou Democracia” do filósofo italiano Domenico Losurdo, intitulado “As trombetas das classes dominantes e os sinos das classes subalternas”, facilmente encontrada na Internet.

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    José Eduardo Garcia de Souza

    12/06/2017 - 07h31

    Não conhecia o texto que recomendou e li-o, pelo que agradeço a indicação. Mas ele não responde a uma pergunta fundamental que continua na raiz da questão da Venezuela: a de denominar como “fascistização” qualquer tentativa de oposição a Maduro – particularmente vinda de parlamento eleito pelo voto popular. É como se Maduro estivesse a dizer que “democracia é algo bom, desde que não me impeça de fazer o que quero, quando quero e com quem quero”. E quem não gostar disto tem-se que enfrentar com as suas milicias disfarçadas de coletivos, o que é bastante em linha com o papel das SA de Hitler.

José Eduardo Garcia de Souza

22/05/2017 - 17h57

Nada justifica o ato bárbaro registrado na foto, seja de quem for que o tenha perpetrado contra quem quer que seja que tivesse sido o seu alvo. Mas a articulista, no seu afã de defender Maduro, esquece de mencionar que há muitos “coletivos chavistas” armados que, inclusive, estão na raiz de diversos embates físicos com a oposição – nas ruas e parlamentar – inclusive, em muitos casos, com consequências. Mais ainda, ela esquece novamente que, em novembro de 2014, segundo o relatado pela AFP, “coletivos chavistas” se recusaram a participar no Programa Governamental de Desarmamento da População Civil. Um comunicado feito em nome de 260 “coletivos chavistas” ao jornal Últimas Notícias colocou que “Parece-nos totalmente absurdo que se esteja a pedir aos coletivos de trabalho revolucionário que entreguem as armas, ao mesmo nível que se exige a qualquer grupo criminoso. Não!. Não somos grupos criminosos, somos organizações revolucionárias”. Se os coletivos são organizações somente de paz e trabalho, porque então precisariam manter as suas armas? Eles têm, certamente, muito a explicar e muito pelo que responder.

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