Venezuela: após eleições, desafio é vencer a guerra econômica

Depois das eleições para governadores, a oposição decidiu ceder e reconheceu os resultados das urnas; a batalha agora é contra a guerra econômica e a especulação, que elevam os preços finais para os cidadãos.

*Pedro Ibañez/Caracas

Esta semana começou na Venezuela com um chamado ao diálogo e ao respeito à Constituição por parte do governo venezuelano e com algumas contradições na coalizão oposicionista.

Na sexta-feira passada, o presidente da República, Nicolás Maduro, alertou os governadores eleitos da oposição que, se não se apresentassem diante da Assembleia Nacional Constituinte, poderiam ser inabilitados e as eleições nos estados onde ganharam seriam repetidas.

Este aviso foi ratificado pela presidenta da Assembleia Nacional Constituinte, Delcy Rodríguez, no sábado.

A oposição reagiu imediatamente, como se essa fosse uma medida autoritária por parte do governo para legitimar a ANC, e ainda insistiu em reiterar a afirmação por parte dos dirigentes opositores de que a eleição teve indícios de fraude. Entre eles Gerardo Blyde, chefe do Comando de Campanha da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão oposicionista, que havia acusado fraude no processo eleitoral.

O ex-secretário da MUD, Jesús Torrealba, fez declarações a uma rádio em Caracas dizendo que a oposição fracassou em sua estratégia insurrecional, fracassou em sua estratégia eleitoral e ainda não tem coragem de assumir seus erros, ressaltando que não foram eles que fracassaram, mas sim a estratégia deles.

Esta foi uma das críticas fortes que Jesús “Chúo” Torrealba fez. Ele que, até fevereiro, era secretário-geral da MUD.

Para a surpresa de muitos, nesta segunda, 4 governadores dos 5 oposicionistas eleitos, do partido Ação Democrática (AD), os governadores dos estados Mérida e Táchira, localizados nos Andes venezuelanos, região limítrofe com a Colômbia, e os estados Anzoátegui e Nueva Esparta, ao norte do país, até o mar Caribe, foram à ANC para se apresentar e depois aos Conselhos legislativos dos estados para, então, poderem exercer suas funções.

Isto representa uma fratura dentro da coalizão oposicionista partindo do que Julio Borges, dirigente do Primero Justicia (direita), em uma entrevista coletiva no domingo, havia indicado, que o juramento seria feito mediante uma consulta prévia aos dirigentes oposicionistas. Eles avaliaram a possibilidade, a factibilidade deste juramento.

Porém, a reunião que aconteceu foi entre os governadores eleitos (AD) e os 4 decidiram se apresentar. O do Primero Justicia, ganhador em Zulia, estado petroleiro localizado no ocidente do país, foi o único que decidiu não se apresentar.

Diante disso, a presidenta da ANC, Delcy Rodríguez, indicou que a lei venezuelana tem todos os mecanismos para interferir neste tipo de irregularidade, de insubordinação, de funcionamento orgânico do Estado venezuelano, partido do princípio de que a ANC é um poder plenipotenciário.

À margem desta situação, os poderes de facto que operam no país, que impulsionaram a guerra econômica nesses meses e que inclusive, desde 2016, promovem uma onda especuladora de preços sem precedentes.

A proteína animal chegou a preços exorbitantes, ultrapassando os 50 mil bolívares, tudo isto alinhado ao ataque à moeda feito do exterior por meio da conta em redes sociais do Dólar Today, site que determina o preço do dólar paralelo, estimado em 40 mil bolívares por dólar.

Isto tem uma incidência direta no mercado venezuelano porque fomenta e impulsiona a onda da especulação. Ainda que os produtos tenham um preço em seu lugar de origem, quando chegam ao destino, como Caracas, capital, têm preços exorbitantes.

As proteínas animais como ovos, queijos, carne e frango têm preços que ultrapassam os 40 mil bolívares em algumas regiões da capital.

Por outro lado, esta onda especuladora afetou também o transporte público coletivo, especialmente as rotas do sudeste da capital, onde o preço da passagem chegou a 700 bolívares, o dobro do custo que tinham, de 280 bolívares, preço que incide no bolso da população.

Muitos porta-vozes e a população nas redes sociais manifestam seu descontentamento diante disso. Como dizem alguns, é uma vingança pelo voto chavista, uma vingança pelo voto do povo, por ter eleito o chavismo em 18 estados.

Espera-se agora que a superintendência de custos comece a realizar uma operação para frear a especulação.

O presidente Nicolás Maduro, na noite de segunda, se reuniu com os governadores revolucionários dos 18 estados para uma reunião sobre gestão com o objetivo de aprofundar regionalmente as políticas sociais e municipalizar as políticas realizadas em nível central.

Uma das grandes mudanças, por exemplo, é que a Corporación Venezolana de Guayana (CVG), das empresas básicas, no estado Bolívar, fronteiriço com o Brasil, agora serão administradas pelo governo do estado Bolívar, representado por Justo Noguera, ganhador da eleição frente ao opositor Andrés Velásquez.

Essa entre outras medidas foram aplicadas em outros estados, onde as empresas que eram administradas pelo governo central, passaram para o governo local.

Enquanto isso se espera que medidas econômicas sejam aplicadas, que a ANC funcione e o presidente siga com os planos de trabalho com os governadores eleitos revolucionário.

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