Para Trump, ainda estamos na guerra fria

Direto de Havana, a jornalista e colaboradora do Nocaute, Leslie Salgado, comenta os efeitos das últimas medidas anunciadas por Donald Trump em relação à Cuba, bem como o desconhecimento do presidente norte-americano sobre as políticas internas da ilha.

 

Por Leslie Salgado

Na semana passada, visitou Cuba a vice-governadora do estado de Minnesota e ela disse aos canais de televisão cubanos que existem inúmeras formas de continuar colaborando com Cuba, apesar do recente memorando de Donald Trump.

Tina Smith é a primeira funcionária de alto escalão que visita a ilha depois do memorando que Trump anunciou na cidade de Miami no dia 16 de junho. Tanto de Cuba quanto dentro da sociedade norte-americana, houve críticas a Donald Trump. E este memorando, mesmo que ainda não tenham anunciado as regulamentações, apenas as medidas, o memorando retrocede na relação bilateral com Cuba e volta à retórica e à linguagem da Guerra Fria.

Para os seguidores do Nocaute, há alguns elementos que talvez não sejam tão familiares quanto para os cubanos, e que são importantes para entender o que aconteceu aqui.

No local onde foi anunciado o memorando, havia alguns personagens importantes para entender o que está acontecendo: Mario Diaz-Balarte, representante pela Flórida, e Marco Rubio, senador também por este estado. Marco Rubio foi uma peça chave na audiência contra o ex-diretor da FBI, foi a pessoa que tornou público alguns elementos da vida pública dele e um elemento chave nessa audiência. Marco Rubio construiu uma carreira em cima da indústria anti-cubana, do discurso contra o projeto socialista cubano. E agora retoma isso com respaldo para continuar com a linguagem e indústria anticubana. E o que está acontecendo? Evidentemente, Donald Trump está retribuindo o favor a Marco Rubio.

Nessa negociação, Trump teve que ceder ante Rubio em um elemento importante, que é recrudescer o controle para que cidadãos norte-americanos visitem a ilha. Segundo cifras da Organização Nacional de Estatísticas cubanas, só até maio de 2017, os visitantes dos EUA para Cuba foram maiores que o total de 2016. Um objetivo fundamental é eliminar, atenuar o fluxo de estadunidenses a Cuba.

Essa categoria que havia se estabelecido antes do governo cubano, de contatos de povo com povo, em viagens individuais, eles querem eliminar isso. Ainda que não tenham publicado os regulamentos, este é um elemento muito importante. Outro elemento importante, e que revela também o desconhecimento sobre a realidade cubana, pelo que dá a entender o memorando de Trump, é a ideia de que afetar as empresas estatais cubanas não significa afetar também o setor privado.

Os cidadãos norte-americanos só poderão consumir em locais privados, administrados por particulares, o que em Cuba é chamado de setor por conta própria. Para eles, são duas coisas completamente separadas, sendo que em Cuba não funciona assim. É desconhecer a realidade do que acontece na ilha.

De toda maneira, tem havido inúmeras reações de dentro da sociedade norte-americana. Os 22 acordos seguem vigentes, continuam de pé, que vão desde acordos para proteção do mar, biodiversidade, controle do ramo do petróleo, ou seja, inúmeros acordos que continuarão cooperando, apesar do acordo de Donald Trump.

O que está muito claro é que é um regresso à linguagem da guerra fria, do enfrentamento, o que, claramente, não traz benefícios a nenhum dos dois países.

Nenhum Comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do NOCAUTE. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Deixe uma resposta

Recomendadas