A oposição venezuelana é a cara do entreguismo da elite latino-americana

A Venezuela tem uma elite que foi forjada dentro de uma das mais perversas formas do capitalismo: o rentismo petroleiro. Não há interesse na construção de uma identidade nacional, mas sim na manutenção dos privilégios e dos lugares sociais.

A oposição venezuelana parece estar com mais dificuldade do que nunca para lidar com o resultado das últimas eleições para governador. A gente está vendo de tudo: ataques pessoais, choro, dissidências e até maldições xamânicas. Nós vimos quatro dos cinco governadores eleitos pela oposição sendo juramentados pela Assembleia Nacional Constituinte, enquanto porta-vozes da MUD seguem afirmando que houve fraude eleitoral nos Estados onde eles não ganharam, claro. Vimos o povo venezuelano expressar nas urnas sua insatisfação com o intervencionismo advogado por setores da MUD, enquanto figuras importantes da coalizão anunciavam mais um tour internacional justamente para pedir ainda mais intervencionismo. Mas o que explica essa dissociação entre realidade e ação que caracteriza a atuação da oposição venezuelana?

Historicamente, os Estados latino-americanos foram forjados para defender e aprofundar os privilégios das classes dominantes, e não para refletir os diversos segmentos e as multiplicidades dessas sociedades. Assim, precisam aliar-se a setores externos para se legitimar. Para Otávio Ianni, essa aliança externa é um fator decisivo na manutenção dos privilégios de classe e casta: a chamada “quinta fronteira”, a associação de subordinação com o estado hegemônico. Nesse sentido, as classes dominantes são elas mesmas uma espécie de “quinta fronteira”, uma vez que veem na cooperação com o imperialismo uma fonte de vantagens. Sendo donas do poder político, não precisam se preocupar com a soberania nacional, dissociando-se dos anseios de amplos setores da sociedade. Essa dissociação, diz Ianni, é tão profunda que, em vários casos, as classes dominantes e a maioria da sociedade parecem ser povos diferentes, completamente estranhos entre si. E é justamente essas contradições que periodicamente irrompem do tecido social e buscam mudar esse estado de coisas. E o Chavismo é um claro exemplo disso.

A Venezuela tem uma elite que foi forjada dentro de uma das mais perversas formas do capitalismo: o rentismo petroleiro. Não há interesse na construção de uma identidade nacional, mas sim na manutenção dos privilégios e dos lugares sociais. Nesse sentido, o Chavismo não só coloca em evidência as contradições dessa elite, como também começa um processo de refundação do Estado.

A crise de credibilidade da MUD está enraizada na falta de articulação dentro da própria coalização, na opção pela violência, na falta de um projeto político sério. Mas, acima de tudo, está enraizada na sua disposição de abrir mão da soberania do país para manter seus privilégios. E é justamente esse descompasso que faz com que as elites venezuelanas aclamem um governo paralelo estabelecido em Washington. A gente está falando de uma oposição que se gaba por pressionar bancos e governos a instituir um boicote econômico contra Venezuela, que comemora sem nenhum pudor as sanções contra o povo venezuelano. É uma oposição cujos principais líderes já apoiaram cinco tentativas diferentes de remover ilegalmente o governo eleito.

A mensagem que sai de Washington, a pedido dessa oposição, não traz opções viáveis para as pessoas que vivem na Venezuela. Como diria Ianni, “é olhando no de fora que se descobre o que está dentro, e o de dentro fica mais nítido quando se vê o que se levou para fora”. E o que a oposição venezuelana leva para fora é a própria soberania da Venezuela, e o que traz é intervencionismo e sofrimento. A oposição venezuelana é a cara do entreguismo da elite latino-americana.

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