A opção militar na Venezuela

O que se desenha agora é um governo entronizado no poder, de forma que a única “esperança”, entre aspas, de derrotá-lo seria por uma somatória de golpe parlamentar e uso da força militar estrangeira

A Venezuela, mais uma vez, volta a ocupar as manchetes. Dessa vez, devido ao artigo do economista Ricardo Hausmann sugerindo um golpe parlamentar seguido de uma intervenção militar internacional no país vizinho. O texto, cheio de lugares comuns e aquela já conhecida distorção da realidade tão característica desses setores reacionários, não mereceria mais do que os cinco minutos de comoção causados por sua manchete sensacionalista. Porém, o contexto em que se insere e a própria sugestão de uma intervenção militar trazem chaves importantes para a gente entender a nova estratégia de ataque que vem se delineando contra a Venezuela.

Em primeiro lugar, há uma nítida reconstrução da narrativa usada no ano passado. Já não estamos mais diante de um governo debilitado, prestes a colapsar a qualquer momento; já não se trata de uma crise que vai invariavelmente conduzir à queda do governo. O que se desenha agora é um governo entronizado no poder, de forma que a única “esperança”, entre aspas, de derrotá-lo seria por uma somatória de golpe parlamentar e uso da força militar estrangeira.

Leia também: As 12 vitórias de Maduro em 2017

Os Estados Unidos, por sua vez, também buscam recompor sua estratégia. Frente ao desmoronamento da unidade da oposição e à possibilidade real de que o diálogo em curso na República Dominicana seja frutífero, já não pode mais sustentar que uma solução negociada não avança devido à suposta sabotagem do governo Maduro. Assim, necessita adotar um posicionamento que inviabilize qualquer acordo. As provocações, sempre concertadas com seus aliados, tentam fazer com que o governo venezuelano se veja obrigado a tomar medidas que, de certo modo, poderiam conduzir a um isolamento do país internacionalmente, como na recente expulsão dos representantes do Brasil e do Canadá.

A sugestão de uma ação militar fala mais sobre o estado da oposição venezuelana do que qualquer outra coisa. As três vitórias eleitorais do Chavismo no último ano levaram a uma notável fragmentação dessa oposição. Mais: muitas das lideranças perderam uma parcela importante de apoio popular, não só pela incapacidade de apresentar um projeto político claro, mas também pelo papel exercido na implementação das sanções que agora asfixiam a economia venezuelana, forçando a uma inversão da lógica para não perder a narrativa.

Ao que tudo indica, a Venezuela segue sendo um tema central da política dos Estados Unidos na região, e Trump vem deixando claro sua inclinação por uma ação militar no país. Um artigo recém-publicado pela revista Político registra o assombro de representantes de governos conservadores da região com a disposição de Trump de intervir militarmente na Venezuela.  Nesse sentido, a manipulação da ideia de que há uma “crise humanitária” na Venezuela é fundamental, uma vez que lança as bases para preparar a opinião pública para um cenário de intervenção posterior às eleições presidenciais previstas para esse ano.

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