Honduras: depois do golpe, fraude?

No último domingo, os hondurenhos foram às urnas. Mas, ao que tudo indica, os mentores do golpe de 2009 contra Manuel Zelaya não estão dispostos a largar o osso – custe o que custar.

 

No último domingo, os hondurenhos foram às urnas. Mas, ao que tudo indica, os mentores do golpe de 2009 contra Manuel Zelaya não estão dispostos a largar o osso – custe o que custar.

Resultados preliminares publicados pelo Tribunal Eleitoral hondurenho indicam a vitória de Salvador Nasralla, candidato da Aliança Opositora contra a Ditadura, com 45% dos votos. Porém, o atual presidente, Juan Orlando Hernández, se autodeclarou vencedor do pleito. O TSE então não só suspendeu a publicação de resultados preliminares, como também alertou que os votos ainda não computados, aproximadamente 2 milhões, poderiam mudar significativamente o resultado das eleições – ainda que isso seja estatisticamente improvável.

Segundo o próprio TSE, os resultados finais devem ser conhecidos somente na próxima quinta. Em geral, os resultados em Honduras são conhecidos sempre algumas horas depois do encerramento das votações, e o atraso já vem gerando diversos protestos e aumentando ainda mais as suspeitas de fraude.

No sábado, a revista The Economist publicou um áudio que parece indicar que o partido de Hernández vem discutindo estratégias para cometer fraude eleitoral. A gravação mostra duas horas de treinamento para os representantes do partido nas zonas eleitorais, e, segundo a revista, sugere pelo menos três maneiras de adulterar a contagem dos votos durante o processo.

Não resta dúvidas de que Hernández é o candidato não só das elites hondurenhas, mas também dos Estados Unidos, especialmente pela abertura que ele vem dando para a crescente militarização das fronteiras do país. Apesar da popularidade em queda, sua vitória para um segundo mandato era esperada – o que é especialmente polêmico em um país em que um presidente democraticamente eleito foi ostensivamente deposto em um golpe de Estado justamente por propor uma consulta popular para a criação de um marco legal para disputar a reeleição.

O golpe contra Zelaya foi um marco na história recente da América Latina. Não só foi o último golpe de Estado de caráter misto, feito com o apoio dos militares e do Parlamento, mas também inaugurou uma série de mudanças forçadas de governo na região, que culminou com os golpes parlamentares no Paraguai e no Brasil.

Uma vitória de Nasralla pode nos ajudar a entender as limitações dessa nova onda de projetos políticos impostos por vias antidemocráticas – o que pode, inclusive, jogar luz sobre as encruzilhadas que enfrentamos hoje no Brasil.

Um comentário

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José Eduardo Garcia de Souza

29/11/2017 - 15h15

A ser verdade, isto não pode e nem deve ocorrer. Mas a articulista, tendo mencionado “novo golpe contra Zelaya”, parece, como sói ocorrer, ter tido novo ataque de amnésia seletiva ao não mencionar o novo golpe de Evo Morales contra a Constituição boliviana. Evo ignorou o referendo de 2016 que rejeitou reeleição sua e obteve, no Tribubal Constitucional que domina – e onde, a exemplo de Maduro, ele desfaz o que o Congresso faz – nova autorização para tentar se reeleger em 2019. Isto não é novidade, já que Evo já havia mudado a Constituição e recorrido ao “seu” Tribunal Constitucional para disputar eleições sucessivas anteriormente. O atual mandato termina em 2020 e, se reeleito em 2019, Evo poderá ficar pelo menos 19 anos no cargo. Deve ser a síndrome do que Lula chamou de “democracia até demais”. Esperemos que a articulista venha a comentar tal armação em artigos subsequentes,

O presidente da Bolívia foi ao Tribunal Constitucional, onde está tudo dominado, e conseguiu a liberação de sua candidatura. De nada adiantaram os protestos da oposição.

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