Fujimori: um indulto conveniente

Entenda o que o presidente Pedro Paulo Kuczynski ganha ao conceder indulto humanitário ao ex-ditador Alberto Fujimori.

Em uma decisão, digamos, polêmica, o presidente peruano Pedro Paulo Kuczynski concedeu o indulto “humanitário” ao ex-ditador Alberto Fujimori, responsável, entre outras, por massacres levados a cabo pelo exército peruano e pela esterilização forçada de mais de 300 mil mulheres.

Fujimori estava preso desde 2009, cumprindo uma sentença de 25 anos por crimes de lesa humanidade e corrupção. O indulto, que já havia sido solicitado em outras ocasiões, é considerado ilegal por especialistas, e foi concedido apenas três dias depois de Kuczynski salvar seu mandato no Congresso – com o apoio decisivo da facção do fujimorismo liderada pelo filho caçula do ex-ditador, Kenji Fujimori.

Mas afinal, o que o presidente peruano ganhou com isso? Bom, do ponto de vista imediato, a manutenção do seu mandato – ainda que com um altíssimo custo político. A decisão de indultar Fujimori foi rechaçada por amplos setores da sociedade, e dois congressistas da sua já escassa base política anunciaram sua renúncia, o que indica que, mais do que nunca, que Kuczynski se verá refém de um Congresso dominado por opositores.

Por outro lado, pode ser que essa decisão tenha sido informada por um jogo político de mais longo prazo. Kuczynski chegou à presidência com pouco mais de 40 mil votos a mais que sua concorrente, Keiko Fujimori. Derrotada no pleito nacional, Keiko foi a grande vencedora das eleições parlamentares, ganhando 73 das 130 cadeiras.

Seu partido, Força Popular, é um dos movimentos políticos mais consolidados no Peru, enquanto que o PPK, de Kuczynski, é um partido embrionário, cujo futuro ainda é bastante incerto. Tanto sua liderança quanto seu governo são considerados frágeis, enquanto Keiko vem se consolidando como uma das lideranças políticas mais importantes do seu país. Nesse sentido, a liberação de Fujimori poderia ser taticamente importante para o PPK, uma vez que pode levar a uma fratura no Força Popular, seja pela retomada do protagonismo político de Fujimori, seja pelo enfraquecimento de Keiko, ou, ainda, pelo fortalecimento de Kenji Fujimori como herdeiro político do ex-ditador.

De qualquer forma, a barganha política está colocada entre um governo débil, um partido oficialista fragilizado pela percepção de ter sido usado como massa de manobra do fujimorismo e uma oposição que parece sair ainda mais fortalecida.

Kuczynski, por sua vez, parece disposto a sacrificar os votos do anti-fujimorismo em nome da manutenção de seu mandato. Mais ainda: a decisão de Kuczynski demonstra, uma vez mais, que quando as direitas assumem o governo, estão sempre dispostas a sacrificar as instituições democráticas em nome da manutenção do poder.

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