Eric Nepomuceno: o que Brasil, Argentina e El Salvador têm em comum? A vendetta contra Lula, Cristina e Funes.

Sempre que governos populares mostram que é possível ocupar o espaço que sempre esteve nas mãos dos privilegiados de sempre, acontece alguma coisa contra.

 

A América Latina vive ciclos. Não é nada muito diferente do que acontece nas outras partes do mundo, mas aqui os nossos ciclos tem algumas características próprias. Bastante claras. Sempre que governos populares mostram que é possível mudar a realidade e que é possível ocupar o espaço que sempre esteve nas mãos dos privilegiados de sempre, e fazer alguma coisa pelos abandonados de sempre, pelos humilhados, pelos ofendidos, sempre que surgem governos populares assim, acontece alguma coisa contra. Porque eles não são admissíveis, não podem existir. E aí quando vem o outro ciclo, o ciclo do contragolpe, o que a gente vê é a determinação de varrer do mapa com uma política de terra arrasada, de eliminar da vida política aqueles que provaram que sim, é possível uma outra realidade. É possível um mundo mais justo, é possível ter esperanças fundamentadas.

 

É o que a gente vê hoje nos dois maiores países da América do Sul. Maiores em importância política e em importância econômica. Eu estou me referindo ao Brasil e à Argentina. E é o que a gente vê também num pequeno e sofrido país da América Central chamado El Salvador, que sobreviveu a uma guerra perversa, cruenta, que matou dezenas de milhares de pessoas e expulsou centenas de milhares de pessoas. Há alguns anos o pequenino El Salvador recuperou a paz e em 2009 ele teve um lampejo de esperança com a eleição de Maurício Funes, o primeiro presidente de esquerda da história de El Salvador.

 

Outra característica da América Latina nesses tempos de turbilhão que a gente anda vivendo é uma espécie de monótona repetição. É como se todos seguissem o mesmo roteiro escrito pela mesma pessoa. Claro que há diferenças fundamentais, por exemplo: na Argentina, pelo voto popular, Mauricio Macri, um ultraconservador, um neoliberal xiita, chegou ao poder. E em El Salvador Mauricio Funes tinha chegado ao poder pelo voto popular e o sucessor dele, Salvador Sánchez que hoje é o presidente lá – do mesmo partido, mesma agrupação, a Frente Farabundo Martí – se tornou o 5º ex-guerrilheiro da América Latina a chegar ao poder pela via democrática, pela via do voto.

 

Aqui no Brasil foi diferente. Michel Temer precisou do voto de 61 senadores, 61 traidores, para fuzilar os 54 milhões e 500 mil votos que Dilma Rousseff tinha obtido nas urnas, supostamente votos soberanos, em 2014. Quer dizer, aqui o que houve foi um golpe, um golpe institucional. Se Funes e Cristina Kirchner no seu tempo foram presidentes legítimos e se hoje Mauricio Macri e Salvador Sánchez são presidentes legítimos – criticáveis porém legítimos – a nós aqui no Brasil, na nossa triste sina, nos coube a nós aqui o pesadelo de um presidente ilegítimo. Um presidente usurpador, um presidente golpista. Tirando porém essa diferença que é, sim, essencial, tudo o que acontece com os governantes dos outros países ao fim do seu mandato está acontecendo aqui, na Argentina, em El Salvador, o tal roteiro que eu mencionei. Parece escrito pelas mesmas mãos, pelas mesmas cabeças.

 

A mais gritante e perigosa dessa coincidência é o que a gente observa: um autoritarismo do Judiciário. Quer dizer, você tem pequenos grupos enquistados dentro do sistema judiciário que se julgam messias, são messiânicos. A lei para eles é um detalhe. O que chama a atenção no Brasil e El Salvador, na Argentina um pouco menos, é que esses juízes de primeira instância, esses fiscais de começo de carreira, aqui no Brasil com a característica que um indivíduo chamado Dalton Dallagnol, pastor evangélico, ele parece seguir os desígnios da Bíblia e não da Constituição, não do Código Penal Brasileiro, não das nossas leis. As leis de Deus. Só que o Brasil é teoricamente um Estado laico, regido por outro tipo de lei.

 

Vamos ver o que está acontecendo: o caso do nosso Mauricio Funes. A Corte suprema de El Salvador referenda a decisão da primeira instância. A acusação? As declarações de imposto de renda dele mostram que durante a presidência, cinco anos, o patrimônio dele aumentou 738 mil dólares. Segundo os fiscais de lá, da Receita Federal lá deles, esse aumento é injustificado. Bom, princípio básico, se fosse dinheiro de roubo ele não ia declarar no imposto de renda. E ele quis declarar, ele quis mostrar, valorização de imóveis, o mercado imobiliário pode oscilar para cima. Não teve jeito.

 

El Salvador ainda é um dos países mais violentos do mundo. Não das Américas. Do mundo. E ele foi ameaçado de morte, a casa dele foi vandalizada, e Funes então pediu asilo na Nicarágua. E ele agora está morando na Nicarágua. A mudança, o caminhão de mudança deles, (El Salvador até Manágua dá uma distância de 300, 400 quilômetros) foi apreendido. Ele tem que justificar a compra do que está dentro do caminhão. Por exemplo, se alguém for na minha casa eu não tenho nota fiscal da televisão, não tenho nota fiscal de camisa, não tenho nota fiscal de nada. Essa é a justiça salvadorenha.

 

Na Argentina a Cristina Kirchner é acusada do que? Enriquecimento ilegal. Ora, o casal Kirchner já era muito, muito rico antes que Nestor Kirchner, o marido dela, chegasse à presidência em 2003. Chovem denúncias de tudo quanto é lado. A que mais me chamou atenção: Florencia Kirchner, filha do casal Kirchner, declarou que tinha na caixa forte de um banco 4.620.000 dólares em dinheiro vivo. Acusação? Dinheiro camuflado, fraude fiscal, evasão fiscal. Detalhe: está declarado no imposto de renda dela dos últimos três anos – herança que ela recebeu do Nestor Kirchner.

 

Aqui no Brasil, o que estão fazendo com o Lula vai nessa linha. É uma coisa que me chama muito a atenção. Por exemplo, as palestras do Lula. O Lula quando saiu do governo era uma das figuras mais populares e poderosas do mundo. E influentes.

Por que que o Fernando Henrique Cardoso pode fazer palestras de 50, 80, 100 mil dólares e o Lula não pode? Por que que um – o príncipe da sociologia, auto-intitulado.

Por que que um pode e o outro não pode? Porque um é príncipe e o outro é operário. Por que Tony Blair, Bill Clinton, Felipe González, ex-chefes de Estado (como aliás o próprio Fernando Henrique Cardoso) podem fazer lobby em defesa de empresas de seus países, depois de abandonar o poder e o Lula não pode? Por que?

 

Doações para o Instituto Lula são evidentemente propina, dinheiro da corrupção da Petrobrás, sei lá mais da onde. Para o Instituto Fernando Henrique Cardoso, muito mais luxuoso, muitíssimo mais caro na manutenção dele, as doações são generosidade. Das mesmas empresas que bancam o Instituto Lula. Generosidade isenta de qualquer intenção, de qualquer, imagina, o que é isso?

 

Eu podia repetir mil exemplos aqui de como a justiça nesses três países não é aquela estátua com uma venda que cega os olhos. Não. É uma justiça caolha, que só enxerga para um lado. E ainda assim, caolha e míope, porque enxerga mal para um lado só. E nesses dois casos, Brasil e Argentina, o que nós temos são exemplos claríssimos da guinada à direita que sacode ou tenta sacudir a América Latina. A volta raivosa daquele neoliberalismo xiita que não chegou ao poder aqui, nas urnas. Não. O ilegítimo, agora há quinze dias em Nova York, num discurso para empresários, assumiu o golpe de estado. Ele diz (para atrair investimentos estrangeiros, na expressão dele) para vender o país, que como a Dilma Rousseff não aceitou as propostas para aquela “ponte para o futuro”, não era mais possível manter essa senhora na Presidência.

 

Para que haja essa ditadura do Judiciário, esse transbordamento do que seria a lei, do que seria o sistema do Estado de Direito, o que você precisa é muito pouco. Você precisa de juízes de primeira instância que se sintam messiânicos. Você precisa de promotores, procuradores públicos que se sintam enviados de Deus. E você precisa de setores da Polícia Federal – da polícia judiciária, de acordo com cada país – que aceitem atuar no atropelo das regras básicas da sua função.

 

O que a gente está vendo é algo que eu nunca achei que fosse ver no meu país de novo. Eu era garoto, eu tinha quine anos quando houve o primeiro golpe. E eu lembro o que a gente viveu. Agora está tudo muito mais simples. Não existe o crime perfeito, mas o Brasil mostrou ao mundo que pode existir o golpe de estado perfeito. Sabe o que que está ameaçando essa perfeição? Essa justiça. E o que mais me deixa atônito é que tudo isso acontece diante da passividade bovina da mais alta instância da justiça no nosso país, o Supremo Tribunal Federal, que tem um comportamento poltrão!

2 Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do NOCAUTE. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

jose salomao

16/11/2016 - 10h45

Brilhante o texto. Vamos divulga-lo.

Responder

paulo oliveira

27/10/2016 - 13h38

Infelizmente o autor transborda de razão. E embora reconheça que não foram poucos os feitos do governo Lula, algo ainda me deixa puto, embora saiba que o que aconteceu agora teria acontecido antes. Não pedir investigação sobre os processos de privatização devem ter sido o item número um exigido pela corja do PMDB para apoiar Lula em 2002, porque também nisso eles estão metidos. Sobra crítica para o sistema político-partidário brasileiro, que força a coalizões (que na teoria deveriam ser benéficas, mas é subvertido como quase tudo o é na política brasileira, e se torna objeto de barganha e extorsão).

Responder

Deixe uma resposta

Recomendadas